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28 março 2010

87. O xote das meninas

Se visto pela lente poundiana, Luiz Gonzaga pode ser classificado como um inventor. O rei do baião soube traduzir as filigranas dos ritmos (crus) do sertão nordestino e apresenta-los com sabor urbano. Xote, xaxado, baião, entre outros tantos, foram enriquecidos pela mirada sonora genial de Luiz Gonzaga.
"O xote das meninas", de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, lançado em 1953, em 78 RPM, e reunido na coletânea A história do Nordeste (1954), enfatiza o balanço xote, com sua cadência marcadamente forte - pela sanfona, triângulo e zabumba - e andamento rápido.
Diferente da gravação, também de Gonzaga, de 1959 - mais frouxa e dengosa -, a gravação de 1953 sublinha os breques que identificam o gênero.
A letra trata dos ciclos da vida, tanto do mandacaru, quanto da menina cantada. Se o fato da fulô fulorá é o sinal que a chuva chega no sertão, toda menina que enjoa da boneca é sinal que o amor chegou no coração. A comparação é rústica e precisa.
Ou seja, o tema é a puberdade e a fertilidade que chegam com a mudança de estação. E a força da natureza é tão assustadoramente inexplicável que o doutô nem examina a menina, pois já sabe o diagnóstico.
Há uma verdade vital (da natureza) que se reproduz na vida humana. A imagem-metáfora do mandacaru que fulora e da menina que se enfeita é bela e arrebatadora. E o refrão afirmativo contrasta com as negativas do final de cada estrofe, dando graça e reiterando o ciclo da vida da menina que desabrocha para os prazeres e apelos do sabor de namorar.

***

O xote das meninas
(Luiz Gonzaga / Zé Dantas)

Mandacaru, quando fulora na seca
É o sinal que a chuva chega no sertão
Toda menina quando enjoa da boneca
É sinal que o amor
Já chegou no coração
Meia comprida
Não quer mais sapato baixo
Vestido bem cintado
Não quer mais vestir timão

Ela só quer, só pensa em namorar
Ela só quer, só pensa em namorar

De manhã cedo já está pintada
Só vive suspirando
Sonhando acordada
O pai leva ao doutô
A filha adoentada
Não come não estuda,
Não dorme, nem quer nada

Ela só quer, só pensa em namorar
Ela só quer, só pensa em namorar

Mas o doutô nem examina
Chamando o pai de lado
Lhe diz logo na surdina
O mal é da idade
A doença da menina
Não há um só remédio
Em toda medicina

Ela só quer, só pensa em namorar
Ela só quer, só pensa em namorar

Um comentário:

Anônimo disse...

Curti muito esse poste, pela interpretação precisa e sensível da canção.
Parabéns. :)