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03 janeiro 2011

Mensagem de náufrago

O Projeto 365 Canções cumpriu sua missão: ouviu e leu uma canção diferente a cada novo dia durante os 365 dias de 2010.
Agradeço aos companheiros de viagem que, com leituras e estímulos, ajudaram a atravessar as ondas sonoras das nossas neo(neon)sereias. Não foi fácil, mas conseguimos.
Quem sabe isso tudo não vira um livro impresso.
Não quero, nem consigo, ancorar e dar um ponto final nesta viagem cancional, neste trabalho tão quixotesco quanto prazeroso. Parto agora para outros mares: ouvir e ler a Canção Popular Brasileira na virada da década.
Sem exorcizar o passado, ao contrário, iluminando-o e sendo iluminado por ele, quero mapear a "geração 00" e o que se anuncia na "geração 10". Continuo antenado nas ondas do rádio, mas com políticas e rotinas diferentes: abandono a tarefa de comentar a primeira canção ouvida no dia e abro espaço para as sugestões dos leitores dos 5 cantos do Brasil; as publicações seguirão meu ritmo de possibilidades e não mais, necessariamente, diárias; e, deste modo, as canções não serão mais enumeradas, pois não há mais meta numérica a ser alcançada.
No mais, tudo continuará a ser feito pelo sabor do gesto de ouvir e ler canção.
Convido-os a conhecer o Lendo Canções.
Façamos!

31 dezembro 2010

365. Copo d'água

"A gente é feito pra acabar (...) pra caber no mar e isso nunca vai ter fim". Os versos da canção que dá nome ao disco Feito pra acabar (2010), de Marcelo Jeneci, traduzem um desejo que atravessa todas as canções: roçar a vida com os diferentes e diversos cíclicos extratos sonoros que ela oferece, sem pseudos experimentalismos que tentam negar o fim das coisas.
Com mirada aguda na canção popular AM e FM, Marcelo montou um disco que consagra o canto simples, brejeiro, mulato, mas por isso mesmo mestiço, malandro e antenado com os recursos modernos. Dito de outro modo, Jeneci não tenta, nem quer, "reinventar a roda". Seu gesto cancional é o de iluminar momentos e movimentos da canção: ilumina-los para que o ouvinte os recebam de forma direta e simples. Com melodias passíveis de ser assobiadas por qualquer um, Jeneci busca o sim do som. E seu prazer em fazer canção é contagiante.
Eis a sofisticação do trabalho de Marcelo Jeneci: restituir-nos (aos ouvintes de canção popular) o prazer de assobiar uma melodia. Algo que tornou-se raro por longo tempo. Aliado a isso, os sujeitos de suas canções agem muito próximos de nós: brincam com nossas experiências cotidianas. É assim, por exemplo, com o sujeito de "Copo d'água", de Marcelo Jeneci, Arnaldo Antunes, Pedro Baby e Chico Salem.
Em "Copo d'água", temos um sujeito às voltas com os desejos e os ciúmes das relações amorosas na era das "ferramentas de sociabilidade". Nas "novas" relações é cada vez mais comum cobrar (ou ser cobrado) o porque de manter-se com o status de "solteiro" no orkut; perguntar (ou ser perguntado) sobre aquela pessoa que manda recado via twitter; o porque de ter sido marcado na foto de alguém no facebook; ou por não saber o que dizer quando se "flagra" (ou se é flagrado com) pedidos de atenção no msn e o "eu eu eu (...) ãh ãh ãh" do instante denuncia.
A canção "Copo d'água" tematiza a insegurança em tempos de amores líquidos, mas recusa a fragilidade dos laços humanos (detectada e analisada por um sujeito que vive experimenta tal situação). Para o sujeito da canção, além de estar conectado ao(s) outro(s) é preciso ter vínculo. E ele aponta os vínculos já estabelecidos e importantes para configurar a relação cantada.
O sujeito da canção se argumenta elencando os objetos (elementos-de-si) que só o outro pode manipular: "o meu cabelo, jeito, cheiro, dedo, pele no seu orkut, e-mail, skype, net, messenger", diz.
Ele joga com as categorias quente (cheiro do corpo) e frio (tela do micro), mostrando ao outro onde está o desejo e em qual direção ambos devem investir a energia erótico-amorosa. Afinal, "quando um não quer os dois não fazem tempestade em copo d'água".
"Você é a pessoa que eu quero pra mim", diz o sujeito ao ritmo de uma melodia pop: liberto (sobreposto às dificuldades de amar o próximo) das neuras e certo da "sua roupa, bolsa, escova, lenço, maquiagem na minha cama, quarto, sala, até na minha tatuagem".
O sujeito sugere que no peito dos internautas também bate um coração: os perfis e as máscaras "sociais" espalhados em orkuts, twitters, facebooks tem algo de orgânico: espelham o desejo do indivíduo por trás de tudo. E o desejo dele é ela: feitos para acabar juntos.

***

Copo d'água
(Marcelo Jeneci / Arnaldo Antunes / Pedro Baby / Chico Salem)

Eu, eu, eu
Eu não disse nada
Por que essa cara?
Você quer atenção

Ãh, ãh, ãh
Ãh, até parece
Que não me conhece
Como a palma da sua mão

O meu cabelo, jeito, cheiro, dedo, pele
No seu orkut, e-mail, skype, net, messenger

Quando um não quer os dois não fazem
Tempestade em copo d’água

Sem, sem, sem
Sem nenhuma mágoa
É só uma palavra…

Sim, sim, sim
Vamos ficar numa boa
Você é a pessoa
Que eu quero pra mim

A sua roupa, bolsa, escova, lenço, maquiagem
Na minha cama, quarto, sala, até na minha tatuagem

Quando um não quer os dois não fazem
Tempestade em copo d’água

30 dezembro 2010

364. Não enche

"Não enche", de Caetano Veloso, lançada no disco Livro (1997), é o canto do indivíduo que tenta se descolar da musa: romper a relação simbiótica, ouvida no backstage da canção, e que agora o sufoca. Ele percebe que se não destruir o outro ele será sempre par: e, no fundo, queremos ser ímpar, singular.
Ele canta a negação do outro a fim de encontrar uma história para si, independente da vida que construiu através do canto do outro. Ou seja, negando o outro, a vida do sujeito retorna para o sujeito, que quer viver, cantar e gozar com liberdade: desimpedido, bicho solto no mundo.
A canção reflete a tensão do sujeito que se rebela. É interessante perceber o requinte do sujeito: a oclusão proposital do nome da mulher, obliterada sob a riqueza vocabular e sua proliferação alucinante de adjetivos que circulam a musa amada e odiada.
Amada porque, como ele mesmo diz: "a melodia do meu samba põe você no lugar", ele deu axé a ela e a mantém "suspensa no ar", na canção, no canto; e odiada porque ela tornou-se a "sanguessuga, que só sabe sugar". As deslumbrantes assonâncias e aliterações figurativizam o gesto da musa que tanto incomoda o sujeito e que lhe leva a cantar.
Certa vez, Caetano ("um velho baiano") disse: "As minhas letras são todas autobiográficas. Até as que não são, são". Deixando de lado o jogo estético, esta afirmação ajuda-nos a entender o sujeito de "Não enche", quando este argumenta "o que eu herdei de minha gente e nunca posso perder", para logo adiante começar uma estrofe com a deliciosa expressão nordestina "Oxente". Aliás, a própria melodia samba-rock-axé intensifica isso.
O sujeito faz de seu canto um desconjuro: vai elencando, em capcioso caos, muito pela ira que lhe move, fragmentos de momentos e sentimentos. Ele desconstrói a relação dual: "eu vou viver sem você", arremata. E faz tudo isso com ludicidade e ênfase sensorial, envolvendo e tornando o ouvinte cúmplice. O sujeito usa as torções semânticas e a mistura melódica para a estesia do ouvinte. Ao final, estamos (nós: ouvintes) prontos para também odiar e deslindar-se desta senhora: dona do dom do sujeito cantor.
Vamos percebendo a mulher cantada por partes. Tonta pela profusão de eus desenhados no canto do sujeito, afinal ela "nunca quis ver, não vai querer, não quer ver", a musa-trepadeira parece desabar do salto: unhas negras quebradas e os castanhos lábios borrados de carmin. Mas tudo não passa de sugestão, ameaça. Ou não?
Seja como for, o sujeito assume o risco de enfrentar a musa - voz clarificada, "gritando: nada mais de nós!". Um gesto vertiginoso e de alto risco, pois, como Clarice Lispector escreveu: "Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro".

***

Não enche
(Caetano Veloso)

Me larga, não enche
Você não entende nada e eu não vou te fazer entender
Me encara de frente:
É que você nunca quis ver, não vai querer, não quer ver
Meu lado, meu jeito
O que eu herdei de minha gente e nunca posso perder
Me larga, não enche
Me deixa viver, me deixa viver, me deixa viver, me deixa viver

Cuidado, ô xente!
Está no meu querer poder fazer você desabar
Do salto, nem tente
Manter as coisas como estão porque não dá, não vai dar
Quadrada, demente
A melodia do meu samba põe você no lugar
Me larga, não enche
Me deixa cantar, me deixa cantar, me deixa cantar, me deixa cantar

Eu vou
Clarificar a minha voz
Gritando: nada mais de nós!
Mando meu bando anunciar:
Vou me livrar de você

Harpia, aranha
Sabedoria de rapina e de enredar, de enredar
Perua, piranha
Minha energia é que mantém você suspensa no ar
Pra rua! se manda
Sai do meu sangue, sanguessuga que só sabe sugar
Pirata, malandra
Me deixa gozar, me deixa gozar, me deixa gozar, me deixa gozar

Vagaba, vampira
O velho esquema desmorona desta vez pra valer
Tarada, mesquinha
Pensa que é a dona e eu lhe pergunto: quem lhe deu tanto axé?
À-toa, vadia
Começa uma outra história aqui na luz deste dia D:
Na boa, na minha
Eu vou viver dez
Eu vou viver cem
Eu vou viver mil
Eu vou viver sem você

29 dezembro 2010

363. Não sei o que dá

Na canção "Fico assim sem você", de Abdullah e Cacá Moraes, o sujeito revela: "tô louco pra te ver chegar, tô louco pra te ter nas mãos, deitar no teu abraço, retomar o pedaço que falta no meu coração". Já na canção "Não sei o que dá", de Zélia Duncan, Ana costa e Mart'nália, o sujeito aponta: "Tava aqui pensando, tenho pão, tenho teto, mas é incerto porque falta você voltar".
Ambas falam da sensação de desconforto causado pela incompletude; pela ausência do outro: do amor. Sem o outro o sujeito nas duas canções simplesmente não existe: "Sei lá, é um vazio que dá": "Avião sem asa, fogueira sem brasa". Os sujeitos recuperam o mito dos andróginos cantado em O banquete de Platão: concebidos um, mas separados pelos deuses, para eles viver é buscar a metade "perdida". Aliás, mito que ainda hoje assombra o nosso Romantismo e inspira o pensamento sobre as almas gêmeas.
Chamam-nos à atenção dois versos de "Não sei o que dá": "Uma voz sem boca pra cantar" e "Como sereia metade anseia, metade é mar". Se no primeiro verso podemos perceber o sujeito cobrando da vida uma boca que lhe cante, necessidade de todo indivíduo; no segundo visualizamos um gesto circular e fadado ao fracasso: o amor.
Deste modo, o sujeito de "Não sei o que dá, um cantor, abre duas frentes para se entender o ato cancional: primeiro porque deixa vazar que a canção só se realiza de fato quando sai da boca de seu intérprete; e segundo porque, ao evocar a imagem da sereia, ser cantante por excelência, deixa entrever seu próprio estado interior (do sujeito): para que cantar se não tenho para quem?
O sujeito se engendra no canto, mas também usa o canto para, sensibilizando o ouvinte, chamar atenção para si: sereia que metade é a ânsia de cantar, mas não tem a boca (o médium); e metade é mar - segredo, mistério e desassossego sedutor.
Ana Costa, com participação de Mart'nália, no disco Meu carnaval (2006), cria um samba noturno: para uma sexta chuvosa na Lapa do Rio. A melodia, ora acompanhada por um coro que remete o ouvinte às vozes sedutoras das sereias, ora por um instrumento que se insinua ser uma gaita, desenha o sujeito que, mesmo tendo as possibilidades infinitas do mar, está só e incerto.

***

Não sei o que dá
(Zélia Duncan / Ana Costa / Mart’nália)

Sei lá, é um vazio que dá
Um vôo sem asa pra voar
Uma voz sem boca pra cantar
Não sei, não sei, não sei o que é que dá
Sei não, é um vazio
Um arrepio sem fogueira pra esquentar
É gostar da vida
Sem vida pra segurar, não sei o que é que dá
É o amor, sem gesto pra expressar
Como sereia metade anseia, metade é mar

É feito um prazer
Sem ter como desfrutar
Falta alguma coisa
Alguma peça nessa engrenagem
Miragem de amor, sei lá
Tava aqui pensando
Tenho pão, tenho teto
Mas é incerto porque falta você voltar
É o amor, sem gesto pra expressar
Como sereia metade anseia, metade é mar

28 dezembro 2010

362. O tom do amor

"As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, (...), destino, idade, sentido. As coisas não têm paz", conclui o sujeito da canção "As coisas" de Arnaldo Antunes e Gilberto Gil.
Noutro plano de interpretação podemos dizer o mesmo do amor. Estraçalhado a mais não poder por poetas, cancionistas e filósofos, entre outros, o amor, ao longo do tempo, vem sendo sobrecarregado de adjetivos, epítetos e definições; o que, por outro lado, tem esvaziado-o de sentido. O amor está morto?
É caminhando por esta vereda que o sujeito de "O tom do amor", de Moska e Zélia Duncan (Pouco, 2010), desenvolve seu pensamento sobre o sentimento que é o segredo da vida: dos contatos, das trocas e das misturas. "O amor tem formas, formas, aromas, vozes, causas, sintomas", diz o sujeito da canção.
O sujeito canta o amor olhando por trás do universo de aparências que nós, humanos, temos lhe dado. O sujeito tenta suspender diferenças e preservar a esperança na vida do amor. Na busca pelo tom do amor, o sujeito evoca os equívocos do passado.
Aqui, é o próprio amor quem canta, personificado no sujeito da canção: o sujeito é o cavalo do amor. Sempre foi assim e assim será. Ao contar o segredo ou ouvinte, o sujeito investe confiança na continuidade do amor.
Pouco importa se o café de cada manhã é servido nas xícaras sujas de ontem. Cabe-nos amar o outro "pelas suas faltas, pelo seu corpo marcado, pelas suas cicatrizes, pelas suas loucuras todas". Eis o tom do amor: "amar dos pés ao que se escapa".
"O amor nasce pequeno, cresce, fica estupendo, às vezes o amor está ali, você nem tá sabendo", diz o sujeito da canção, apontando a imprevisibilidade da situação. E não importa de onde ele venha, nem para onde nos leve, é preciso estar disponível para a explosão do amor antigo em canção. Assim, como esta, terna e toda nossa - humana: "se cura doendo".

***

O tom do amor
(Moska / Zélia Duncan)

O amor vai te contar um segredo
Não precisa ter medo
Nem sair correndo

O amor nasce pequeno
Cresce, fica estupendo
Às vezes o amor está ali
Você nem tá sabendo

O amor tem formas, formas, aromas,
Vozes, causas, sintomas
O amor

É mãe, é filho, é amigo,
Às vezes num canto esquecido existe amor
Antigo, antigo
O amor que cuida, parte e assusta
Que erra e pede desculpas
Às vezes o amor quer ferir
E se cura doendo

O amor tem formas, formas, aromas,
Vozes, causas, sintomas
O amor

É pausa, silêncio, refrão
E explode nessa canção
O amor vai te contar

Um segredo, fica atento, repara bem
Que o meu amor é todo seu
Antigo

27 dezembro 2010

361. Dia branco

O sujeito de "Dia Branco", de Geraldo Azevedo e Renato Rocha, é a própria sereia tentando seduzir e convencer o ouvinte a com ela seguir "numa praça, na beira do mar". E faz isso usando a imagem de um dia branco: cheio de possibilidades para ser experimentadas e opções para ser engendradas.
Guardada no disco Inclinações musicais (1981), "Dia branco" é o canto que quer saciar os desejos do ouvinte - "sol se o sol sair, ou chuva se a chuva cair" - e assim fisga-lo. E o que é um ouvinte sem o canto? Nada, simplesmente não existe.
A sereia sabe disso e promete realizações neste sentido: o canto de amor singular que mantem o ouvinte vivo na vida. Porém, para tanto, o ouvinte precisa ir com ela - "pro que der e vier". A letra da canção começa com o "se" abrindo, assim, as segundas intenções da voz que canta.
A melodia lenta, passional, adensa o desejo de manter o ouvinte "parado" no canto: atento à canção amorosa e mais vulnerável à conquista. A lamúria humana é pelo reconhecimento, portanto, como negar o convite da sereia que me canta: que diz quem sou?
Por outro lado, tornando-me escravo desse canto, reconheço-me como um ser para a morte. Enquanto a sereia se arrisca, canta e me conquista, eu me acomodo e me torno agente da história, pela angústia de sempre necessitar do canto da sereia.
A nesga metacancional de "Dia branco", que acontece quando o sujeito da canção diz (canta) "Se branco ele for, esse tanto, esse canto de amor", é usada para apontar a consciência-de-si daquele que canta: a ficção é sedutora quando ela (o sujeito) conversa com ela mesma - impõe-se como ficção: interferência no "real".
A voz que canta (sempre ficcional) lança um impulso sobre o ar e acerta em cheio o ouvinte exausto de cotidiano. A voz pronuncia o mundo - constrói e desconstrói tempos e espaços - em abundância: desejo primordial do ouvinte. Cabe a este dizer sim ou não: abandonar o "se".

***

Dia branco
(Geraldo Azevedo / Renato Rocha)

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo

Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva

Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar

Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor

Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo

26 dezembro 2010

360. Carnaval do Brasil

"Carnaval do Brasil" é a conjunção feliz entre "Bloco do prazer", de Moraes Moreira e Fausto Nilo, "Pombo correio", de Dodô, Osmar e Moraes Moreira, e "Festa do interior", de Moraes Moreira e Abel Silva. Nessa sequência.
Moraes Moreira, que começou seu contato com a canção tocando sanfona em festas de São João, mistura diversos elementos - da "festa do interior" ao "bloco do prazer" - pulsando a folia de rua: de sol, suor e cerveja. Para o sujeito de "Carnaval do Brasil" o que importa é embriagar o ouvinte com a vontade de festejar a vida: alegria que se desdobra em alegria. É a fé na festa como algo além (muito mais) do que o cotidiano oferece que move o sujeito e que lhe leva a incendiar a multidão com seus acordes envenenados de guitarra.
Guardada no disco Tem um pé no pelô (1993), "Carnaval do Brasil" tem como referência os inventores das marchinhas, dos frevos e dos sambas; agrega crônica do cotidiano com lirismo; evoca o romantismo dos antigos cordões, blocos, sociedades, corsos, alinhavando-os com a eletricidade do trio elétrico: aponta a mutação necessária para que a tradição sobreviva ao tempo: "Mamã mamãe eu quero sim, quero ser mandarim cheirando gasolina".
Ao justapor canções o sujeito brinca com a pergunta: "quem é você?". Ele consegue entrar na festa por aquilo que ela tem de mais primitivo: a perda das identidades ordinárias e estanques. "Carnaval do Brasil" é uma canção que celebra o conjunto das festas nascidas nas classes populares, sem reivindicações de autorais: da rua e para a alegria do povo, da massa.
Aliás, de fato, temos três canções que juntas, costuradas pela guitarra, resultam em uma quarta canção, desenhando os quatro dias de festa. "Pra libertar meu coração eu quero muito mais que o som da marcha lenta (...) não quero oito ou oitenta eu quero o bloco do prazer", diz uma; "Pombo correio voa ligeiro (...) que eu aqui fico cantando que é pra espantar essa tristeza", diz outra; e "nas trincheiras da alegria o que explodia era o amor", completa a terceira.
Ou seja, tudo aqui, na quarta canção, em "Carnaval do Brasil", quer revelar de onde vem, por que vem e para quem vem o carnaval brasileiro: da e para a alegria dos prazeres - para a orgia da felicidade. Ao unir as canções, o sujeito de "Carnaval do Brasil" abraça o país festeiro e suas diversas formas de cantar a alegria.

***

Carnaval do Brasil

Bloco do prazer
(Moraes Moreira / Fausto Nilo)

Pra libertar meu coração
Eu quero muito mais
Que o som da marcha lenta
Eu quero um novo balancê
E o bloco do prazer
Que a multidão comenta
Não quero oito e nem oitenta
Eu quero o bloco do prazer
E quem não vai querer?

Mamã mamãe eu quero sim
Quero ser mandarim
Cheirando gasolina
Na fina flor do meu jardim
Assim como carmim
Da boca das meninas
Que a vida arrasa e contamina
O gás que embala o balancê

Vem meu amor feito louca
Que a vida tá curta
E eu quero muito mais
Mais que essa dor que arrebenta
A paixão violenta
Oitenta carnavais

Pombo correio
(Dodô / Osmar / Moraes Moreira)

Pombo correio
Voa depressa
E esta carta leva
Para o meu amor

Leva no bico
Que eu aqui
Fico esperando
Pela resposta
Que é pra saber
Se ela ainda
Gosta de mim

Pombo correio
Se acaso
Um desencontro
Acontecer
Não perca
Nem um só segundo
Voar o mundo
Se preciso for
O mundo voa
Mas me traga
Uma notícia boa

Pombo correio
Voa ligeiro
Meu mensageiro
E essa mensagem
De amor
Leva no bico
Que eu aqui
Fico cantando
Que é pra espantar
Essa tristeza
Que a incerteza
Que o amor traz

Pombo correio
Nesse caso
Eu lhe conto
Por estas linhas
A que ponto
Quer chegar
Meu coração
O que mais gosta
"Volta pra mim"
Seria
A melhor resposta

Festa do interior
(Moraes Moreira / Abel Silva)

Fagulhas
Pontas de agulhas
Brilham estrelas
De São João

Babados
Xotes e xaxados
Segura as pontas
Meu coração

Bombas na guerra-magia
Ninguém matava
Ninguém morria

Nas trincheiras
Da alegria
O que explodia
Era o amor

Ardia aquela fogueira
Que me esquentava
A vida inteira
Eterna noite
Sempre a primeira
Festa do interior