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09 março 2010

68. Tempo rei

"Tempo rei", de Gilberto Gil, é um libelo de esperança para um sujeito diante da finitude da existência. Para ele, não há fim mas a permanência por meio de metamorfoses e adaptações. Como um mutante, o sujeito canta o eterno retorno.
Lançada no disco Raça humana (1984), essa canção reafirma a veia filosófica-otimista do cancioneiro de Gilberto Gil. A fé no futuro (ou em algo para além do alcance da razão), porque consciente das transformações do presente, é a base temática. Além da vulnerabilidade das coisas e das fragilidades dos laços humanos.
O sujeito mira no mutável para cantar permanência. Há uma certeza tranquila e serena de que aquilo que podemos tomar como sendo o fim, se revelará apenas como mais um recomeço.
Acreditar na completa extinção é não compreender o movimento cíclico natural. Envelhecer, desenvolver sabedorias, é também saber viver. A morte não acaba com o homem (enquanto raça humana), portanto, o sujeito não se ilude, o que existiu antes e além de sua presença continuará existindo.
O tempo, tambor de todos os ritmos, é rei: tudo sabe e nada diz. E as velhas formas de viver precisam se adaptar ao sabor dos caprichos do rei. Sem amargura, mas feliz pelo sabor do gesto o sujeito canta o pensamento sobre o tempo e, de viés, posiciona-se como elemento e sujeito importante na errância ordinária.
Oração ao tempo, a canção "Tempo rei" é intervenção do sujeito no tempo, sem medo de perdas, nem espera de ganhos. Afinal, "tudo agora mesmo pode estar por um segundo". Ou seja, do mesmo modo como faz na forma - invertendo a expressão Senhora do Perpétuo Socorro para "mãe senhora do perpétuo socorrei" -, o sujeito inverte o conteúdo tornando parceiro do tempo.

***

Tempo rei
(Gilberto Gil)

Não me iludo
Tudo permanecerá do jeito que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos
Pães de Açúcar
Corcovados
Fustigados pela chuva e pelo eterno vento
Água mole
Pedra dura
Tanto bate que não restará nem pensamento

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei

Pensamento
Mesmo o fundamento singular do ser humano
De um momento
Para o outro
Poderá não mais fundar nem gregos nem baianos
Mães zelosas
Pais corujas
Vejam como as águas de repente ficam sujas
Não se iludam
Não me iludo
Tudo agora mesmo pode estar por um segundo

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei

2 comentários:

Fabiano disse...

Esta é das canções do meu rei Gil q + me emociona!

Edson Junior disse...

Uma boa segui-lo! Há músicas que 'esquecemos' e que gostamos tanto! E outras que são 'novidades'! Abraço.