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28 maio 2010

147. Telegrama

"Telegrama" tem o tempo narrativo dividido em três eixos: "Estava só, sozinho"; "Mas recebi um telegrama" e "Hoje". Esta divisão dá uma ideia da "progressão" dos acontecimentos e das experiências internas do sujeito da canção.
As metáforas e metonímias pinçadas do cotidiano (televisivo e cinematográfico) e coladas no quadro que o sujeito tenta apresentar ao receptor-ouvinte indiciam que, apesar da dor (de estar sozinho), ele não perde o humor. Este recurso (rimar humor e dor), aliás, é bastante frequente na poética melancólica de Zeca Baleiro.
Dito de outro modo, ao misturar diversas referências (do nosso pet shop mundo cão), Baleiro engendra sua obra de tradição (o apelo às imagens do dia-a-dia, do simples) e de modernidade (forças melódicas eletrônicas).
"Telegrama" (Pet shop mundo cão, 2002) é um ótimo exemplo disso. Na primeira parte (enquanto o sujeito canta sua solidão) percebemos (pelos alongamentos das vogais e pelo ritmo mais lento indiciando a tristeza do coração) o lirismo amargurado do ser diante da intempérie do universo ao redor; enquanto que com a chegada do telegrama (dizendo "eu te amo") a canção ganha rítmico acelerado (o coração dispara), pois o sujeito (mãos dadas com seu amor) já pode pensar em sair para ver o sol.
Ou seja, o sujeito, crente que o mundo ia se acabar (daí as imagens pesadas e sarcásticas que ele vê e mostra - "a top model magrela", "o canastrão na hora que cai o pano" e "o palhaço do circo vostok") descobre o amor de alguém (de Aracajú ou do Alabama, pouco importa onde o outro está, o que importa é o canto do amor: "nego, sinta-se feliz").
Esta virada (bem marcada no andamento melódico) faz o sujeito querer tomar "loucas" atitudes: "mandar flores ao delegado" e "bater na porta do vizinho e desejar bom dia".
É assim, de forma enviesada, que "Telegrama" dialoga com "E o mundo não se acabou", por exemplo. Enquanto na canção de Assis Valente o sujeito age "loucamente" na expectativa do fim do mundo (da morte); na canção de Zeca Baleiro é o canto do amor (da vida) que o leva a querer "beijar o português da padaria".

***

Telegrama (Zeca Baleiro)

eu tava triste tristinho
mais sem graça que a top model magrela
na passarela
eu tava só sozinho
mais solitário que um paulistano
que um canastrão na hora que cai o pano
(que um vilão de filme mexicano)
tava mais bobo que banda de rock
que um palhaço do circo vostok

mas ontem eu recebi um telegrama
era você de aracaju ou do alabama
dizendo nego sinta-se feliz
porque no mundo tem alguém que diz
que muito te ama que tanto te ama

por isso hoje eu acordei com uma vontade danada
de mandar flores ao delegado
de bater na porta do vizinho e desejar bom dia
de beijar o português da padaria

oh mama oh mama oh mama
quero ser seu
quero ser seu
quero ser seu papa

2 comentários:

Cissa Bastos disse...

Parabéns pela análise da música. Telegrama é uma das minhas músicas favoritas.
Parabéns, pelo blog, muito criativo!

Honrado Principe dos Ares Secos disse...

Cara seu blog é maravilhoso!