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19 maio 2010

139. Amor de índio

"Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive". Estes versos de Ricardo Reis sintetizam a mensagem da canção "Amor de índio", de Beto Guedes e Ronaldo Bastos (Amor de índio, 1978).
Se entregar por inteiro nas mínimas ações é tarefa árdua e complexa. A exigência de permanente mutação tende a afastar o humano do lado bom de ser tudo; de perceber o ciclo natural da vida; e de não perder a fé (que remove montanhas).
O sujeito da canção canta o motor da luz. Tudo o que move é sagrado, pois a única certeza estável é a de que tudo muda, está em movimento e, por isso, brotar e secar são bênçãos que constituem o sujeito (enquanto a chama arder).
Ou seja, o sujeito sagra (utilizando, muitas vezes, reminiscências bíblicas, para vaticinar suas certezas) a oportunidade de estar no mundo e de poder participar das engrenagens da máquina, ao lado de alguém.
As imagens geradas pela letra são de uma beleza toda terna, visto que trabalhadas sobre momentos do cotidiano do ouvinte, que se deixa encantar e ser amado.
Obviamente, a canção permite ainda a leitura de um amor entre dois, mas, diante do filme que passa no cérebro de quem ouve, fica irresistível ampliar os limites do amor.
A melodia dá o tom de algo móvel, seja o corpo, seja a mente. O rítmo do trabalho. Eis o amor de índio, o amor desautomatizado que faz de cada coisa algo para além do sagrado.
"Sim, todo amor é sagrado" aponta para as várias formas de amar, afinal, qualquer maneira de amor vale a pena. O verso revela também que o sujeito, do seu jeito de amar - amor de índio - respeita e ama todo amor.

***

Amor de índio (Beto Guedes / Ronaldo Bastos)

Tudo que move é sagrado
e remove as montanhas
com todo o cuidado, meu amor.
Enquanto a chama arder
todo dia te ver passar
tudo viver a teu lado
com arco da promessa
do azul pintado, pra durar.

Abelha fazendo o mel
vale o tempo que não voou
A estrela caiu do céu
O pedido que se pensou
O destino que se cumpriu
de sentir seu calor
e ser todo
Todo dia é de viver
para ser o que for
e ser tudo

Sim, todo amor é sagrado
e o fruto do trabalho
é mais que sagrado, meu amor.
A massa que faz o pão
vale a luz do teu suor
Lembra que o sono é sagrado
e alimenta de horizontes
o tempo acordado, de viver.

No inverno te proteger, no verão sair pra pescar
no outono te conheçer, primavera poder gostar
no estio me derreter
pra na chuva dançar e andar junto
O destino que se cumpriu
de sentir seu calor e ser tudo.

2 comentários:

ADEMAR AMANCIO disse...

Esta letra tem a força de uma oração,e na gravação do milton nascimento,ele canta como quem reza mesmo.seu comentário só reforça a beleza da canção.

maarani disse...

A versão definitiva é a do Milton. Uma poesia na voz de um mestre.