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28 janeiro 2010

28. Disfarça e chora

Com um excelente conjunto de músicos e composições que teriam várias gravações futuras, Cartola (1974) é um disco referencial para a história da nossa canção.
O acompanhamento melódico cadenciado de "Disfarça e chora" parece ir contra aquilo que sugere a letra. Ora, porque chorar se o samba está rolando? Mas é justo deste "contraste" que brota a beleza do momento, afinal "a tristeza é senhora, desde que o samba é samba".
Não é nada fácil disfarçar uma perda (amorosa, ou não), mas o sujeito (malandro), sugere que, como vem raiando o dia e o sambista não gosta e se lamenta da chegada do sol (afinal, assim, "as morenas vão logo embora"), o outro deve aproveitar esse lamento e "fazer de conta" que está chorando por causa da aurora. Não há momento mais certo!
A voz de Cartola (com o "r" dobrado, típico); os breves, mas pontuais, alongamentos vocálicos (que fazem o ouvinte sentir o langor de quem chora); a concisão da mensagem na letra; e o balanço da melodia são primorosos.

***

Disfarça e chora (Cartola / Dalmo Castelo)

Chora, disfarça e chora
Aproveita a voz do lamento
Que já vem a aurora
A pessoa que tanto queria
Antes mesmo de raiar o dia
Deixou o ensaio por outra
Oh! triste senhora
Disfarça e chora
Todo o pranto tem hora
E eu vejo seu pranto cair
No momento mais certo
Olhar, gostar só de longe
Não faz ninguém chegar perto
E o seu pranto oh! Triste senhora
Vai molhar o deserto

Um comentário:

BRAS disse...

Lembre-me do negro Zacarias na obra Vinha dos Esquecidos de João Clímaco Bezerra. Ele, solitário, após a morte da mãe, ex-prostitura, tocava violão esperando a aurora e tinha relações sexuais com prostitutas na mesma cama que a mãe costuma manter para conseguir o sustento.