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29 janeiro 2010

29. Aquarela

A estrutura toda rimada e ritmada desta longuíssima canção (ou seria deste poema musicado?), de Toquinho, Fabrizio, Morra e Vinicius de Moraes, oferece beleza ao todo poético e demonstra o cuidado estético dos autores.
O título não poderia ser mais apropriado. Se na técnica de pintura em aquarela os pigmentos são dissolvidos em água, nesta canção lançada por Toquinho em 1983 - no disco Aquarela - as cores são agrupadas, e diluídas, a cargo da imaginação do ouvinte: "Basta imaginar".
Toquinho se tornou mestre neste modo de compor: buscando estimular a imaginação do ouvinte. Não é à toa que suas canções embalam as crianças. Vale registrar que, para a minha geração, fica difícil desvincular esta canção da famosa propaganda da Faber Castell (1983): que dava imagens aos versos da letra.
A letra articula imagens plasmadas por um narrador que canta enquanto faz (e vice-versa) sua aquarela. Enquanto a complexa melodia embala a magia sedutora do encantamento visual, em uma harmonia perfeita e comovente.
Cada situação é detalhadamente burilada com cores exatas e imagens corretas. O passeio proposto pelo sujeito da canção é curtido pelo ouvinte com um mergulho no mar da ilusão (real: nossa tradição é empirista e o sujeito investe nisso) que a arte proporciona.
O sujeito recupera a noção de experiência. A linguagem (o canto) é espaço da experiência, sem atingir o "cerne" dela: contar (cantar) é viver. "Aquarela" suspende o perigo e apresenta um tempo/espaço das delícias e isso afeta o ouvinte.
O objeto, substituído no título por "aquarela", é, de fato, a vida. A vida (a estrada percorrida por todos: aquele espaço pintado e habitado pelo ouvinte, durante a execusão da canção) é cantada em sua profusão de cores e possibilidades.
"O fim dela (da vida) ninguém sabe bem ao certo onde vai dar". O sujeito enfatiza o percurso que investe no meio, no acaso, em detrimento do fim. A única certeza é: um dia ela (a vida) descolorirá.

***

Aquarela
(Toquinho - Fabrizio - Morra - Vinicius de Moraes)

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo.
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva,
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva.

Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel,
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.
Vai voando, contornando a imensa curva Norte e Sul,
Vou com ela, viajando, Havai, Pequim ou Istambul.
Pinto um barco a vela branco, navegando, é tanto céu e mar num beijo azul.

Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená.
Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar.
Basta imaginar e ele está partindo, sereno, indo,
E se a gente quiser ele vai pousar.

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida.
De uma América a outra consigo passar num segundo,
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo.

Um menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente, a esperar pela gente, o futuro está.
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar,
Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar.
Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar.

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá.
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar.
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá.

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo (que descolorirá).
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo (que descolorirá).
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo (que descolorirá).

2 comentários:

Luiz Henrique Garcia disse...

Essa é uma canção que prova que o bom gosto das crianças é enorme, basta incentivar, não precisa ser privilégio de gerações passadas. Também me vem a imagem da propaganda, hoje de fato as propagandas e jingles não tem mais esse nível. Realmente "Aquarela" é como um quadro pintado com maestria.

ADEMAR AMANCIO disse...

como você escreve bem sobre música.Que coisa!