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16 janeiro 2010

16. Menino das laranjas

À primeira vista, o que chama à atenção na canção "Menino das laranjas", de Theo de Barros, gravada por Elis Regina no disco Samba eu canto assim (1965), é a convivência das três vozes que se fazem ouvir na letra: a do sujeito que observa o menino vendendo laranjas para sustentar a mãe solteira; a da mãe que manda o filho vender as laranjas; e a voz do próprio menino gritando e oferecendo sua mercadoria.
As justaposições (entradas e saídas de cena) de cada voz mais parecem a montagem de um filme que é projetado aos olhos do ouvinte. Elis consegue jogar com as três vozes da canção, sem perder a dramaticidade da cena apresentada.
O canto e o gesto vocal de Elis Regina (cria de Ângela Maria que, por sua vez, é cria de Dalva de Oliveira) são impecáveis e precisos durante a troca de personagens: respirações, pausas, acelerações e desacelerações, apoiados pelo arranjo melódico, dão beleza à vida cruel de um menino que, tendo sua infância minada, vende laranjas para sustentar a si e à família.
Vem a pergunta: quem se acaba é a feira; são as laranjas; ou é o próprio menino? O engajamento social da canção fica evidente na complexividade da ignorância da mãe que, mesmo sem ter condições de sustentar os rebentos, engravida.
São muitos os "meninos da laranja", que apanham (da vida e da mãe) se não trouxerem o necessário para casa. Mas, se de fato só damos aquilo que temos, esta mãe (lavadeira das roupas do povo da cidade) não pode dar outra coisa ao filho senão o adensamento da crueldade da existência.
Cabe ao sujeito, cantor, ao narrar a história deste menino (que é muitos), denunciar e iluminar a vida do outro, pois, enquanto durar a canção, os ouvintes estarão atentos à verdade do garoto. A canção instiga o desassossego em quem ouve e, quem dera, incute desejos de mudança no quadro social.

***

Menino das laranjas
(Theo de Barros)

Menino que vai pra feira
Vender sua laranja até se acabar
Filho de mãe solteira
Cuja ignorância tem que sustentar

É madrugada, vai sentindo frio
Porque se o cesto não voltar vazio
A mãe já arranja um outro pra laranja
Esse filho vai ter que apanhar

Compra laranja menino e vai pra feira

Compra laranja, laranja, laranja, doutor
Ainda dou uma de quebra pro senhor

Lá, no morro, a gente acorda cedo
E é só trabalhar
E comida é pouca e muita roupa
Que a cidade manda pra lavar

De madrugada, ele, menino, acorda cedo
Tentando encontrar um pouco pra poder viver até crescer
E a vida melhorar

3 comentários:

Simone disse...

Amei seu blog

ADEMAR AMANCIO disse...

Sem pieguice,mas seu texto me fez chorar.coisa que nem a Elis,Deusa maior,tinha conseguido com sua voz.

Leonardo Davino disse...

Agradeço as palavras gentis.