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25 dezembro 2010

359. A voz de uma pessoa vitoriosa

As dimensões verbal e musical não fornecem a energia de uma canção. Tal energia não se escreve, apesar de poder ser sugerida. É na forma da voz, na performance vocal que a canção se faz; se apresenta.
O intérprete é o autor empírico. Ao mesmo tempo em que, gravada, a voz preserva a possibilidade de acesso ao passado ("brilha no tempo a voz vitoriosa"): ao instante da execução, de fato, da canção. As várias mídias trabalham, assim, para fazer de cada audição uma nova e singular presença (física) da voz.
Não há como negar os gestos autorais de cada intérprete: sua assinatura aparece do lugar onde coloca a voz, daqui dependerá a reverberação da canção no ouvinte. É a voz (suas sinuosidades) que sugere caminhos; faz aquilo que é dito ter algum sentido; é o motor dos estímulos somáticos.
Deste modo, faz-se imprescindível atentar para a melodia da entoação de cada cancionista; para o "aproveitamento dos recursos coloquiais", como Luiz Tatit aponta em Dicção do cancionista. Afinal, quem aprimora ou modifica a composição é o cantor.
Quando Maria Bethânia canta - suas ênfases, pausas, alongamentos, timbre - presentifica o sujeito da canção: a voz que fala (interesse pelo que é dito) dentro da voz que canta (interesse por como é dito). Ela reforça seu projeto entoativo e cria o acontecimento.
Guardada no disco Álibi (1978), "A voz de uma pessoa vitoriosa", de Caetano Veloso e Waly Salomão, canta a presença daquela voz por traz da superfície dos versos. De tal voz, quando aparece cantando gloriosa, quem ouve nunca mais se esquece.
Quando Bethânia, em entrevista, afirma que a voz não é dela mas das sereias, demonstra a consciência com que exerce seu ofício. Através dela (personificada em sereia) os seres encantadores - barcos sobre os mares - voz que transparece uma vitoriosa forma de ser e viver.
A voz que canta não pode fazer mal algum, ao contrário ela quer encantar, acalentar e ninar. Mas, ao mesmo tempo, faz isso singularizando o ouvinte, ou seja, desassossegando-o diante da existência vazia de sentidos. Ouvir a voz vitoriosa - das sereias: do canto sobre o canto - é ter um consolo dual: acalanto e motor de mobilidades.
O "assim" - "a voz de uma pessoa assim vitoriosa" - chama a atenção do ouvinte para a voz de quem está cantando: "assim como eu - vitoriosa". Eis um recurso metacancional que dispara a importância do indivíduo enunciador: do intérprete, também cancionista.
Tudo isso, dito da forma risonha e feliz com que Bethânia o faz, como extensão do próprio corpo, enche a canção de sentidos e faz o ouvinte se contagiar a querer ser e estar para além das quinquilharias do dia-a-dia: entre a escuridão e a claridade; pois sabe que aí "coração arrebenta, entretanto o canto aguenta".

***

A voz de uma pessoa vitoriosa
(Caetano Veloso / Waly Salomão)

Sua cuca batuca
Eterno zig-zag
Entre a escuridão e a claridade
Coração arrebenta
Entretanto o canto aguenta
Brilha no tempo a voz vitoriosa
Sol de alto monte, estrela luminosa
Sobre a cidade maravilhosa

E eu gosto dela ser assim vitoriosa
A voz de uma pessoa assim vitoriosa
Que não pode fazer mal
Não pode fazer mal nenhum
Nem a mim, nem a ninguém, nem a nada
E quando ela aparece
Cantando gloriosa
Quem ouve nunca mais dela se esquece
Barcos sobre os mares
Voz que transparece
Uma vitoriosa forma de ser e viver

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

Este disco de maria bethânia é todo lindo,um dos raros casos onde qualidade e popularidade se encontraram.