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16 dezembro 2010

350. Minha música

Para que serve a arte? Eis a pergunta que tanto desafia intelectuais e para a qual cada um tem uma resposta pertinente. Para os "alienados" a função da arte é desconectar o indivíduo do real, leva-o ao pós-real; já para os "engajados" a arte serve para chamar o indivíduo ao real. Mas entre estes supostos opostos há uma infinidade de entradas e saídas para se pensar a função da arte: se é que há alguma.
"A arte existe porque a vida não basta", sentenciou Ferreira Gulllar. Ou seria o contrário: a vida existe porque a arte não basta? Seja como for, a arte parece ser igual ao mito pessoano: "é o nada que é tudo (...) assim a lenda se escorre a entrar na realidade, e a fecundá-la decorre de nada, morre". Ou seja, no caso em questão, as instâncias fixas "alienação" e "engajamento" servem apenas como pressupostos didáticos, pois na prática estão com seus contornos sempre turvados, contactando-se e misturando-se.
O sujeito de "Minha música", de Adriana Calcanhotto (A fábrica do poema, 1994), brinca com isso e se coloca entre (dentro) os dois pólos: "minha música não quer ser resposta, não quer perguntar, diz. O sujeito usa a negação - a letra é construída sobre a aglutinação de complementos para a sentença "minha música não..." - como mecanismo de defesa. Negando, o sujeito se protege da consciência alheia sobre o quereres.
De fato, a única afirmação, além do enviesado verso final - "minha música não quer pouco" -, que não deixa de conter o "não", é "minha música quer estar além do gosto". Pois, mesmo no verso "minha música quer ser de categoria nenhuma" há uma negação implícita.
Assim o sujeito se revela, ou melhor, deixa entrever que o que sua música quer é simplesmente ser música, longe dos juízos, teorias e conceitos que quanto mais esmiúça a música mais se afasta dela, mais nega o que ela é, mais a perde. Até mesmo o ato de contar isso me torna um matador da canção, pois quanto menos afirmativas e definições definitivas, mais a música permanece viva e apta às renovações.
O sujeito, por sua vez, tal qual a música que compõe, é obra em progresso: sempre aberto, proliferante e condensador. É negando, afastando o pensamento do outro sobre si, que o sujeito se constitui.
Para chegar perto desta música, só musicando - fazendo canção - pois ela não quer suportar nenhum olhar: apenas ouvidos. E ela sabe que isso não é pouco, afinal, no mundo em que tudo tem um valor, um juízo, uma função estar além do gosto (não pertencer nem a ninguém nem a nada) é investimento (quase) impossível. Só concebível em arte.

***

Minha música
(Adriana Calcanhotto)

Minha música não quer ser útil
não quer ser moda
não quer ser certa

Minha música não quer ser bela
não quer ser má
minha música não quer nascer pronta

Minha música não quer redimir mágoas
nem dividir águas
não quer traduzir
não quer protestar

Minha música não quer me pertencer
não quer ser sucesso
não quer ser reflexo
não quer revelar nada

Minha música não quer ser sujeito
não quer ser história
não quer ser resposta
não quer perguntar

Minha música quer estar além do gosto
não quer ter rosto, não quer ser cultura
minha música quer ser de categoria nenhuma
minha música quer só ser música

minha música não quer pouco

2 comentários:

Sílc disse...

Leonardo, coisa boa é poder vir até sua Casa e só conteúdo bom e gostoso de se ver. Entrei aqui pois Postei na semana passada Amor de ìndio no Blog em que faço parte "Mínimo Ajuste". E fui apresentada a você. Que bom! Já o estou seguindo e se desejar vá até a minha Casa para me conhecer e também, poderá vivistar o Mínimo ajuste uma Casa Universal onde estou te convidando a fazer parte dela. Iria enfeitá-la com todo seu conhecimento através de seus Poemas cantados. Obrigada.
com amor e carinho,
Sílvia
http://www.silviacostardi.com/
http://minimoajuste.blogspot.com/

Felicidade Clandestina disse...

Maravilhosa interpretação.

Aqui é tudo maravilhoso. Poesia, música, suavidade... palavras!

Parabéns pelo trabalho.
Abraços