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06 dezembro 2010

340. Pra que cantar?

Na conversa - dada ao público na revista Serrote - entre Jorge Luis Borges e Vinicius de Moraes a felicidade e a alegria se sobressaem. Enquanto Borges, apoiado em frase de William Blake, afirma que "A felicidade vale mais do que a alegria": "É muito mais importante a felicidade, que é serena, do que a alegria, que tem algo de efêmero, de incômodo para os outros, de barulhento"; Vinicius afirma que a "felicidade sempre depende de outra pessoa".
O pensamento de Borges encontra eco no sujeito da canção "Pra que cantar?", de Nuno Ramos. Aqui, o sujeito sensivelmente fatigado afirma que "cantar assim faz mal a quem é triste". Eis o tal "incômodo para os outros" do qual Borges acusa a alegria.
O sujeito da canção está falando (cantando) enquanto passeia pelas ruas tomadas pelo carnaval. Ele é o pierrot chorando a ausência da colombina. Nele, sujeito triste, a alegria alheia causa dor. Afinal, quando estamos tristes até um dia de sol parece estar zombando de nosso estado: queremos que tudo sofra conosco; queremos espelhos, sempre.
O sujeito quer ficar fora "dessa euforia de três dias": ele quer felicidade e saudade. Mas, quanto de investimento pessoal a felicidade exige? Para Borges, "se a felicidade depende de outra pessoa, sempre há um elemento de dúvida, de angústia". Já para Vinicius, como sabemos, "é impossível ser feliz sozinho". Estamos fadados à dúvida e à angústia, portanto?
Quando o sujeito pergunta "pra que cantar?", e faz isso cantando, já está respondendo à pergunta: canta-se para se manter inteiro; para não se perder na dor que, assim como a alegria que ele vê nos outros, e lhe incomoda, tem o mesmo poder de arrastar o indivíduo ao espalhamento de si. E o carnaval é signo disso.
A interpretação de Gal Costa (Hoje, 2005), acompanhada por sons acústicos, intimistas, investe na contenção do sujeito; sem deixar de apontar a certa irresistibilidade (contagiosa) da festa. O sujeito renuncia aos apelos do carnaval, mas se incomoda também com isso.
As relações fluidas e leves do carnaval, cada vez mais impostas como modelos para a vida ordinária, chocam-se com a posição do sujeito que procura uma relação sólida e duradoura (feliz?) - algo cada vez mais raro. E isso agrava a sensação de deslocamento daquele que canta: sozinho na multidão.
Seja como for, as diferenças possíveis entre felicidade e alegria, mais do que contradições, devem ser encaradas como perspectivas que, vez ou outra, se tocam. Cantar é a única certeza estável: cantando mandamos a tristeza embora.
Claro estar que a questão é bem mais complexa do que aquilo que este espaço me permite desenvolver, mas é deste lugar que lembro o pedido sedutor do Village People: "Please, don't stop the music".

***

Pra que cantar?
(Nuno Ramos)

Pra que cantar
com alegria?
Cantar assim
faz mal a quem é triste.
Se é carnaval,
e a lua insiste,
mesmo sozinha,
em imitar o dia,
prefiro a sombra,
o silêncio existe;
me deixem fora
dessa euforia de três dias.

É carnaval,
ninguém resiste;
espalha-se a felicidade.
Só eu caminho pela cidade,
chamando alto
o nome dela com saudade.

2 comentários:

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) disse...

Leonardo,
Um sonetinho que fiz quando achava que estava triste:

METÁFORAS DESAFORADAS

A dor é um orgasmo que não suportamos,
Espasmo da alma obtendo abster-se do corpo.
O prazer é um grito de quem está morto.
Morte? A melhor moradia que habitamos!

Alegria, alguma ilha ao Sul donde estamos.
Loucura seria achar a bússola e o barco
E volver a travessia fatal de um parto...
Porto seguro é a nuvem de que despencamos.

Pecado é o fruto maduro que não ofertamos!
Epicuro vertendo suas vestes aos céus,
Felicidade é a cidade dos tabaréus!

Aos sábios lhes baste a arte de serem bons!
Aos tolos lhes dêem outra tábua de dons!
Enquanto isso reinamos, remamos, teimamos...

(Pedro Ramúcio)

*
Prazer estar-me aqui todo dia. Volto na próxima canção...

Abraço mineiro,
Pedro Ramúcio.

ADEMAR AMANCIO disse...

Esta página merece varios elogios,o disco da gal,o texto de Leonardo,a letra de nuno ramos e o soneto de Pedro Ramúcio.