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20 dezembro 2010

353. Dentro de mim mora um anjo

No final da canção "Sorri", de C. Chaplin, J. Turner e G. Parsons, na versão de João de Barro, o sujeito sugere: "Sorri, vai mentindo a tua dor e ao notar que tu sorris todo mundo irás supor que és feliz".
Estas palavras encontram parceria nos versos do sujeito de "Dentro de mim mora um anjo", de Sueli Costa e Cacaso. Aqui há um sujeito apontando a diferença entre aquilo que ele canta e aquilo que lhe passa por dentro: "Quem me vê assim cantando não sabe nada de mim", diz.
Há nos dois casos o uso da máscara como artifício de sobrevivência. Diferente do sujeito da canção "Me revelar", de Christriaan Oyens e Zélia Duncan, que diz: "tudo aqui quer me revelar: minha letra, minha roupa, meu paladar", o canto é usado como uma película que esconde, vela e cobre algo que precisa ser preservado: o próprio sujeito.
Podemos assim entrar na discussão sobre as canções e suas interpretações. Ou seja, até que ponto a voz que canta é a mesma voz interior do sujeito da canção? Mas o mais interessante, nos casos em questão, é perceber que o lado de dentro pode fazer um acordo com o lado de fora do sujeito e assim ambos se preservam e sobrevivem aos olhares alheios. Sem se revelar o sujeito se supõe a salvo.
Ele cria uma superfície em que tudo aquilo que nós (ouvintes) vemos, enquanto ele canta, é pintura: o anjo que mora dentro do sujeito, e lhe canta à vida, não é percebido pelos outros. O sujeito mantém sua sereia particular e íntima. Ele assume o risco da valorização dos símbolos, trabalha seu intimismo, introspecção e viagem interior.
Mas se o sujeito quer manter o anjo seguro, por que nos revela que há um anjo guardado? Eis a beleza desta canção interpretada por Fafá de Belém em Banho de cheiro (1978): além de jogar com o desejo voyeur do ouvinte, o sujeito revela que tudo no seu canto é ficção, até o que não é é, ficção.
Ele mesmo não sabe muita coisa de si, nem de seu anjo, mas ao sorrir para os outros (cantar a vida para os outros) ele mesmo se supõe feliz e vivo. As instâncias se misturam mas não perdem suas especificidades."Acho que é columbina, acho que é bailarina, acho que é brasileiro", diz.
Na criação de uma atmosfera de sonho e de fantasia, o sujeito deixa entrever sua dedicação ao gesto de cantar: ele é um cantor que, mesmo não sentindo o que diz, o que para alguns resulta em uma heresia contra a própria canção, sincero e lúcido, sem hipocrisia, ilumina o quanto de renúncia e dedicação são necessárias para que a canção (ofício e necessidade) não páre.

***

Dentro de mim mora um anjo
(Sueli Costa / Cacaso)

Quem me vê assim cantando
não sabe nada de mim
Dentro de mim mora um anjo
que tem a boca pintada
que tem as unhas pintadas
que tem as asas pintadas
que passa horas à fio
no espelho do tocador
Dentro de mim mora um anjo
que me sufoca de amor
Dentro de mim mora um anjo
montado sobre um cavalo
que ele sangra de espora
Ele é meu lado de dentro
eu sou seu lado de fora

Quem me vê assim cantando
não sabe nada de mim
Dentro de mim mora um anjo
que arrasta suas medalhas
e que batuca pandeiro
que me prendeu em seus laços
mas que é meu prisioneiro
Acho que é columbina
Acho que é bailarina
Acho que é brasileiro

Quem me vê assim cantando
não sabe nada de mim

2 comentários:

ADEMAR AMANCIO disse...

Esta música e letra são lindas,a interpretação da fafá também é linda e sua análise também é linda,viu.

Laudiflor disse...

Parabéns Professor,

Adorei o texto.È pra isso que os professores nasceram para nos ensinar a voar.

Agraços