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05 dezembro 2010

339. Espumas ao vento

Os versos "o meu olhar vai dar uma festa, amor, na hora que você chegar" são uns dos mais belos da canção popular. A condensação de singelos (e ingênuos) sentidos em tão poucas palavras é arrebatadora - potência de uma simplicidade complexa e de difícil alcance. O ouvinte cria a expectativa de tal acontecimento; imagina-o; e, portanto, plasma-o dentro de si.
O interessante é que, humilde, o sujeito diz a certa altura da canção: "Eu não encontro uma palavra para te dizer. Ah, se eu fosse você eu voltava pra mim de novo". Ou seja, ele diz sem esforço (sem querer querendo), com a sofisticação rural que os afetos exigem, aquilo que a razão urbana não consegue lhe ajudar. Eis o êxito da canção: ela é só para dizer e diz: "nos amamos, volta pra mim, volta para ti".
Gostoso forró, imortalizado na voz de Flávio José, "Espumas as vento", de Accioly Neto, é um pedido de perdão; de reconciliação; e de afirmação do desejo pegando fogo. Direto, o sujeito assume seus erros e roga a volta do outro. Discípulo daquele tipo de amor que "deixa marcas que não dá pra apagar", o sujeito sabe que também ainda mexe com o juízo do outro e seu investimento é todo voltado para a persuasão do outro; ou melhor, para despertar no outro aquilo que o sofrimento (mágoa) parece ter feito adormecer.
É nisso que Elza Soares investe. Incorporando uma diva de filme noir, Elza Soares criou uma das mais comoventes interpretações que esta canção poderia ter. Do forró ao underground. A dicção carregada de vocalizações jazzísticas atravessa a mensagem da canção, contamina a melodia e corta o coração de quem ouve.
Se "o amor é filme e Deus espectador", como canta o sujeito de "O amor é filme", de João Falcão e André Moraes, nós, ouvintes, somos voyeurs e cúmplices do sujeito da canção "Espumas ao vento": somos atravessados pelo lirismo de sua dor, mas queremos mais.
Na versão de Elza, registrada na trilha sonora do filme Lisbela e o prisioneiro (2003), o sofrimento do sujeito é ampliado ao extremo: estilhaços de estrelas e tempestades solares cobrem o canto. A volumosa melodia reiterativa aperta os nós da garganta: "cabeça doida, coração na mão". E só quando afirma o desejo da volta é que o sujeito se permite respirar.
O desejo vem acompanhado por um grito (quase) infinito de desespero e volúpia que chama à consumação; ao encontro: o sujeito é porta aberta minando vontades. Com Elza ele é todo paixão: prisioneiro daquilo que "não é coisa de momento": mas que pega, mata e come.

***

Espumas ao vento
(Accioly Neto)

Sei que aí dentro ainda mora
um pedaço de mim
um grande amor não se acaba assim
feito espumas ao vento

Não é coisa de momento, raiva passageira
Mania que dá e passa feito brincadeira
O amor deixa marcas
que não dá pra apagar

Sei que errei e estou aqui pra lhe pedir perdão
cabeça doida, coração na mão
desejo pegando fogo

Sem saber direito a hora e o que fazer
Eu não encontro uma palavra para te dizer
Ah, se eu fosse você eu voltava pra mim de novo

De uma coisa fique certa, amor
a porta vai estar sempre aberta, amor
o meu olhar vai dar uma festa, amor
na hora que você chegar

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