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10 dezembro 2010

344. Samba do grande amor

“Eu sempre achei que o amor, que o grande amor, fosse incondicional. Que quando houvesse um grande encontro entre duas pessoas tudo pudesse acontecer. Porque se aquele fosse o grande amor, ele sempre voltaria triunfal. Mas nem todo amor é incondicional. Acreditar na eternidade do amor é precipitar o seu fim. Porque você acha que esse amor aguenta tudo então de um jeito ou de outro você acaba fazendo esse amor passar por tudo. O grande amor não é possível, e talvez por isso seja grande, para que nele caiba o impossível”.
As palavras ditas por André Newmann, personagem interpretada por Michel Melamed, na série de TV Afinal, o que querem as mulheres?, dialogam com o discurso do sujeito de "Samba do grande amor", de Chico Buarque. Ambos discutem, dentro de si (da canção existencial individual), em monólogo compartilhado, com se nós (ouvintes) encontrássemos um diário perdido, sobre a validade e a valoração do amor: seus aspectos perecíveis; e seus desdobramentos interditados.
Feito para compor a trilha sonora do filme Para viver um grande amor, de Miguel Faria Jr, "Samba do grande amor" mereceu algum tempo depois uma bela versão de Beth Carvalho no disco Pérolas: 25 anos de samba (1992). Beth investe nas idiossincrasias do sujeito que fala na canção: desenrola um samba gostoso e dengoso, apontando mais aquilo que fica (a experiência) do que as perdas.
Desiludido, mas consciente do conhecimento que se lhe apresenta, o sujeito refaz os caminhos cruzados de um amor que ele julgou eterno. Ele acreditou no grande amor: se atirou e foi até o fim. Tolo, ele em vão agora tenta raciocinar nas coisas do amor, ampliando sua mágoa e seu rancor.
Com uma pedra no peito (ele parece mesmo entoar "Atiraste uma pedra no peito de quem só te fez tanto bem"), o sujeito descobre que sambar é chorar de alegria; é se libertar pelo extravasamento. Desalentado, ele ri dos que ainda crêem na possibilidade do grande amor. Ele que assim já agiu canta a descrença, pois: "acreditar na eternidade do amor é precipitar o seu fim. Porque você acha que esse amor aguenta tudo então de um jeito ou de outro você acaba fazendo esse amor passar por tudo", como observou André Newmann.
Mas tudo muda de ângulo se atentarmos para a recorrência da palavra "mentira" em pontos nodais da letra. O que é mentira: o amor? ou aquilo que o sujeito disse sobre o amor? Mas o amor não é, de fato, aquilo que nós dizemos sobre ele? Amar não seria, portanto, chorar de alegria; ou seja, criar e creditar o amor?
O pensamento do sujeito surge depois do amor (há vida depois do amor?) e o seu canto é uma mensagem da prisão: o sujeito se torna aquilo que é quando canta. Dito de outro modo, ele só se tornou um desiludido quando confessou sua desilusão, quando se tornou canção: ele é o samba do grande amor.
Para Bernardo Soares, em seu Livro do desassossego: "amamo-nos todos uns aos outros e a mentira é o beijo que trocamos". Mostrar o que de fato somos é impossível, pois nem mesmo nós sabemos de nós: a mentira nos ajuda a criar as relações afetivas - ela é imprescindível. É deste modo que o sujeito da canção, mentindo e afirmando a mentira, tenta romper com o amor e se aproximar de nós - seus ouvintes e cúmplices - sem perceber que chafurda ainda mais os próprios sentimentos.
Seja lá como for, para encerrar com um trecho do livro As palavras de Freud, citado pela personagem André Newmann: "Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa saúde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emoções, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa é. E este hábito de reprimirmos constantemente as nossas pulsões naturais é o que faz de nós seres tão refinados. Porque é que não nos embriagamos? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabeça fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Porque é que não nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separação, uma parte dos nossos corações fica desfeita. Assim, esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer".

***

Samba do grande amor
(Chico Buarque)

Tinha cá pra mim
Que agora sim
Eu vivia enfim o grande amor
Mentira
Me atirei assim
De trampolim
Fui até o fim um amador
Passava um verão
A água e pão
Dava o meu quinhão pro grande amor
Mentira
Eu botava a mão
No fogo então
Com meu coração de fiador

Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
Exijo respeito, não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira

Fui muito fiel
Comprei anel
Botei no papel o grande amor
Mentira
Reservei hotel
Sarapatel
E lua-de-mel em Salvador
Fui rezar na Sé
Pra São José
Que eu levava fé no grande amor
Mentira
Fiz promessa até
Pra Oxumaré
De subir a pé o Redentor

Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
Exijo respeito, não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira

Um comentário:

Janaina Cruz disse...

Bom dia Leonardo, por um acaso feliz eu encontrei o teu blog e fã de cara logo fiquei... Amo música, minha vida parece-se com trilhas sonoras.
Sobre o post que achei perfeito, e até copiei algumas observações, digo-lhe: Amar não é coisa pra qualquer um, amar é um exercício que muitas vezes nos causa dor, é a negação de nós próprios, e afirmação quase que absoluta do outro, e quando chega ao fim, não o amor, mas a sensação que guardávamos em nós, como se tudo fosse durar para sempre, temos uma sensação de tempo perdido... Pena não é?
Mas é possível amar de novo, ou amar o mesmo alguém inúmeras vezes, basta cultivar, cuidar e ser zeloso com algo tão especial que chega a perfumar as nossas almas.