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05 dezembro 2010

338. Cabaret da sereia

A primeira estrofe de "Cabaret da sereia", de Flávio Venturini e Alexandre Blasifera, refere-se à transição experimentada pelo indivíduo durante um reveillon. Revisões e projeções se justapõem compondo um sujeito em espelho.
A referência à certa espuma no ar, que em primeira instância se refere à bebida comemorativa da noite, remete-nos à gênese da deusa (do amor) Afrodite: esperma do deus e espuma do mar. Sem cais, ancorado apenas na solidão de ser só, o sujeito canta a misteriosa canção que vai de si para si, ou para o outro projetado.
O mar (des)orienta o sujeito: revira desejos e mostra o tempo que passou. Pior: mostra as marcas deixadas pelo tempo. Ou, como Clément Rosset anotou no livro O real e seu duplo: "Se é verdade que o acontecimento surpreendeu a expectativa ao mesmo tempo em que a satisfazia, é que a expectativa é culpada, e o acontecimento inocente. O logro não está, então, do lado do acontecimento, mas do lado da expectativa".
O sujeito da canção, ao esperar algo, deixou de sentir, viver, aproveitar o acontecimento. Cantor, seu desejo agora é poder cantar no cabaret da sereia: ser instrumento daquelas que dizem a verdade terrível; ser a voz do amor (dor e alegria).
Guardada no disco Noites com sol (1994), esta metacanção investiga os motores da voz do sujeito: suas perdas e ganhos - tudo junto e misturado constitui o sujeito, faz dele o cantor de seu próprio presente (passado e futuro).
Diante das possibilidades que um novo ano lhe oferece, o sujeito quer reverter o tempo, suspender o juízo e ir ser selvagem: voltar ao primitivo instante do amor. Mas tudo é canto distante do real. Ou seja, tudo é duplo: ele acorda na areia da praia; e a canção termina junto com o sonho bom. Ficam apenas o sargaço agarrado ao calcanhar e a maresia arranhando a garganta.
Ainda como sugere Rosset: "A análise da expectativa frustrada revela que, na verdade, inventa-se, paralelamente à percepção do fato, uma ideia espontânea segundo a qual o acontecimento, ao se realizar, eliminou uma outra versão do acontecimento, aquela mesma que precisamente se esperava".

***

Cabaret da sereia
(Flávio Venturini / Alexandre Blasifera)

Espuma no ar
Reveillon
Tão misteriosa canção
O tempo passou pelo meu coração
Estrela do mar
Solidão

Um barco sangrando no cais
A terra rodando prá trás
Me deu vontade de encontrar você
Queria gritar
Mas lembrei
Que ali era praia de pescador

Ah meu amor
Se eu pudesse caminhar
No azul do mar
Nunca mais voltar

Faria uma casa pra morar
Daria um beijo no luar
Iria cantar no cabaret da sereia

Pescava na sala de jantar
Deixava o vento me levar
A noite chegou eu acordei
Na areia

2 comentários:

ADEMAR AMANCIO disse...

E os homens lá pedindo bis,Bêbados e febris,a se rasgar por mim.Cauby,enfim revelado.

ADEMAR AMANCIO disse...

Assim como caetano veloso confundiu a palavra bastidores com camarim em sua música tributo a joão gilberto,eu devo ter confundido com cabaret.