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14 julho 2010

195. Meu mundo e nada mais

A importância que as trilhas sonoras de telenovelas desempenham para a história de nossa canção é grande. Além de tornar a trama, ora mais leve, ora mais pesada, dependendo dos apelos das cenas, as canções marcam as personagens e estimulam emoções no ouvinte-telespectador. Elas, como que, complementam a personagem. Sem esquecer, claro, o alcance de público.
Como somos seres carentes (circular e infinitamente) do canto do outro, ao assistirmos alguém (a personagem de ficção) vivenciando algo que encontra eco nas nossas necessidades íntimas e particulares, e aquele momento é emoldurado por uma canção, esta canção entra, pelas portas da empatia e da afetividade, na nossa constituição de sujeitos.
É assim que muitas vezes as canções ultrapassam os limites da TV e figuram nas vidas reais embalando momentos particulares de quem assiste à novela. Seja como for, ao colarmos uma canção a um tempo e a uma imagem (no caso uma cena de novela, algo que atravessa nosso cotidiano por um bom par de tempo) facilitamos que ela (a canção) dure mais: ressoe em nossa caixa acústica interior. Isso, não só ajuda a difundir a canção como também a torná-la perpétua (em nós: ouvintes).
"Meu mundo e nada mais", de Guilherme Arantes (Guilherme Arantes, 1976), é um destes casos. A canção apareceu na novela Anjo mau e nunca mais parou de tocar: seja pelo poder de fixação da imagem televisiva, seja pela própria canção em si: sua mensagem (letra e melodia).
Competente pianista, Guilherme criou um acompanhamento melódico e harmônico que investe nas potências daquilo que a letra diz. A bela introdução indicia a voz de um sujeito que, chafurdando em restos de vida, canta a paz perdida.
Ao sustentar as vogais, no final de alguns versos, o sujeito parece querer manter (rever) a vida que perdeu. Fera ferida, o que lhe importa agora é juntar os caquinhos de um velho mundo a fim de projetar um novo.
O sujeito percebe, com dor, que não há "verdades verdadeiras". Tudo muda o tempo todo e a vida, neste momento, exige mudanças. A certeza dá paz. Mas, o mundo é feito de incertezas, ou melhor, de ficções: verdades construídas, montadas e frágeis. O sujeito percebe isso e tenta (de)escrever o seu livro do desassossego.
Desencantado da vida (ele que tinha tudo e cantava), o sujeito está mudo: não há mais porque cantar, se as motivações cessaram. A reflexão interna do sujeito transparece como um desabafo íntimo: a vontade de esquecer a causa do desencanto. Mas, como ver luz no fim do túnel se estamos na curva; na crise; na fronteira entre o sim e o não? Como voltar a sorrir sem amargura depois da ferida? Como superar a quebra permanente das estabilidades? Eis as questões.

***

Meu mundo e nada mais
(Guilherme Arantes)

Quando eu fui ferido, vi tudo mudar
das verdades que eu sabia
só sobraram restos, e eu não esqueci
toda aquela paz que eu tinha

Eu que tinha tudo, hoje estou mudo
estou mudado
À meia-noite, à meia-luz pensando
Daria tudo por um modo de esquecer

Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto,
à meia-noite, à meia-luz sonhando,
Daria tudo por meu mundo e nada mais

Não estou bem certo
se ainda vou sorrir
sem um travo de amargura
Como ser mais livre,
como ser capaz
de enxergar um novo dia

2 comentários:

ADEMAR AMANCIO disse...

Taí um caso clássico de música que marcou uma novela,e de novela que marcou uma música.

Renata Feitosa disse...

Parabéns pela reflexão! Excelentes comentários!