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05 julho 2010

186. Chão de estrelas

Certa vez, o poeta Manuel Bandeira, referindo-se à canção "Chão de estrelas", declarou: "Se se fizesse aqui um concurso, como fizeram na França, para apurar qual o verso mais bonito da nossa língua, talvez eu votasse naquele de Orestes em que ele diz: 'Tu pisavas os astros distraída'".
De fato, a imagem (da lua furando o zinco e salpicando de estrelas o chão do barracão) é arrebatadoramente lírica e bela. Como toda a canção de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa o é. A propósito, o verso que Bandeira escolheu como o mais bonito da nossa língua foi homenageado por Caetano Veloso, na canção "Livros": "Tropeçavas nos astros desastrada".
Maria Bethânia, nossa diva dadivosa e dona do dom que deus lhe deu, fez um registro da canção "Chão de estrelas" em Âmbar (1996): disco que traz Bethânia interpretando composições contemporâneas (de Adriana Calcanhotto, Chico Cesar, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Orlando Moraes) entre, num claro clarão de quem sabe escolher o repertório, composições que já entraram para o cânone da canção popular brasileira.
Os arranjos de Jaime Além e Harvey Cohen (cordas e piano) investem na grandiloquência melódica e adensam a dor do sujeito que canta aquilo que viveu.
A canção "Chão de estrelas" autentifica as fronteiras tênues entre ficção (guizos falsos da alegria) e realidade (barracão no morro do Salgueiro): o sujeito, que podemos identificar como um cantor popular, que vivia entre as palmas febris dos corações do público, canta o tempo áurea de sua carreira, em detrimento a hoje: saudade da mulher "pomba-rola que voou".
O sujeito canta a encenação (com contrastes de emoções) de sua vida, como indivíduo apaixonado e como cantor. A voz de Bethânia (investindo nas alturas e volumes) dramatiza a narrativa, ajudando a figurativizar a paixão do sujeito: como é cruel cantar assim, separado de sua vida outrora iluminada pela mulher. Reforçando a ideia romântica do artista que quanto mais sofre mais bela arte faz.
Palco e barracão se misturam. Semelhante ao sujeito que, mais tarde, Chico Buarque criou na canção "Bastidores" (imortalizada na interpretação de Cauby Peixoto), o sujeito de "Chão de estrelas" mistura sua vida privada à vida de cantor: figuras construídas melódica e performaticamente.
Cortes e fraturas temporais e emocionais travestem o prisionamento de um sujeito preso à (memória da) paixão e ao canto.

***

Chão de Estrelas
(Sílvio Caldas / Orestes Barbosa)

Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações
Meu barracão no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou
Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda, qual bandeiras agitadas
Pareciam estranho festival!
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional
A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas os astros, distraída,
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão

2 comentários:

Adivania disse...

Gostei de saber dessa interpretação de Maria Bethania que você citou. Acho linda a voz dela, mas confesso que não conheço muito de seu trabalho. Excelente texto.

Bruno disse...

Com uma letra dessas, será que faz sentido discutir se letra de música é poesia? rs

Abraços