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23 novembro 2010

Iolanda

A metacanção (canção que fala de si), vinda na esteira da metafísica, tem como procedimento básico tentar investigar além do sensível: fazer perguntas para as quais não há respostas prontas e simples. Ou seja, a metacanção quer ter acesso a algo em que só se chega através do discurso (da própria canção).
Sendo uma canção que fala sobre canção, a metacanção quer ter acesso a si; àquilo que está por trás e além do que é dito, cantado. Por isso, "esta canção é mais que uma canção, quem dera fosse uma declaração de amor", como diz o sujeito de "Iolanda", de Pablo Milanês, na versão de Chico Buarque.
Gravada por Simone no disco Amor e paixão (1986), "Iolanda" é uma declaração de amor às relações latino-americanas; é um ensaio amoroso sobre a usa (ideal e romantizada) que condensa em si as vozes e os cantos - o colo - para o sujeito híbrido e desterritorializado.
Iolanda simboliza o instante ficcional do sujeito que, descoberto, precisa do colo da sereia que lhe canta - suspende as certezas ordinárias. Sempre insuficiente, o canto precisa ser reouvido: "eternamente te amo".
Iolanda é uma paisagem geográfica movediça e ficcional - a mulher mais adorada: diante da qual o sujeito despe o juízo, evoca sensações contrárias (prazer e melancolia?) e comunga com a vida.
"Iolanda", a canção, duplica o enigma da Iolanda mulher-musa, pois quer resolver o enigma do outro (de quem se fala). Para tanto espalha significantes do próprio sujeito (espelho) que fala.
Essa circularidade da ilusão cria a verdade (estética e ficcional) do sujeito. O sujeito quer dizer de seu amor e diz: compõe uma canção que é mais que uma canção, é algo que quer ir além do que é dito; roça a pele de Iolanda ao roçar a própria pele de uma canção que contém a si mesma.

***

Iolanda
(Pablo Milanês - versão: Chico Buarque)

Esta canção
Não é mais que uma canção
Quem dera fosse uma declaração de amor
Romântica
Sem procurar a justa forma
Do que me vem de forma assim tão caudalosa

Te amo, te amo
Eternamente te amo

Se me faltares
Nem por isso eu morro
Se é pra morrer
Quero morrer contigo
Minha solidão
Se sente acompanhada
Por isso às vezes sei que necessito
Teu colo, teu colo
Eternamente teu colo

Quando te vi
Eu bem que estava certo
De quem me sentiria descoberto
A minha pele
Vais despindo aos poucos
Me abres o peito quando me acumulas
De amores de amores
Eternamente de amores

Se alguma vez
Me sinto derrotado
Eu abro mão do sol de cada dia
Rezando o credo
Que tu me ensinaste
Olho teu rosto e digo à ventania
Iolanda, Iolanda
Eternamente Iolanda
Iolanda
Eternamente Iolanda
Eternamente Iolanda

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