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16 novembro 2010

319. Menina veneno

"O relógio quebrou e o ponteiro parou em cima da meia-noite, em cima do meio-dia, tanto faz porque depois de um vem dois e vem três e vem quatro". Os versos da canção "O relógio quebrou", de Jorge Mautner", dizem muito ao sujeito de "Menina veneno", de Ritchie e Bernardo Vilhena.
Do disco Voo de coração (1983), "Menina veneno", com sua introdução futurista, embalou geração. Ainda hoje é canção muito executada, pelo afeto do e com o público: há, de fato, uma sintonia passional que cativa e torna o ouvinte cúmplice do sujeito que fala.Meia-noite ou meio dia é o marco virtual - o xis, o instante zero - do indivíduo tomado pela vontade de ser: é o tempo e o espaço de se desfazer (do passado, ainda presente) e desejar (o futuro, que já se insinua). É neste lugar que ela (menina veneno: musa e sereia) sobe as escadas e invade os sentidos: o sujeito está pronto à sua espera.
Sinestésica, "Menina veneno" investe mais no desenho do quadro, a fim de melhor envolver o ouvinte: o sujeito quer que nós tenhamos a exata experiência que ele está vivendo. Para tanto, quebra algumas expectativas - ao invés de dizer "do princípio ao fim", ele diz "do princípio ao sim", afinal o desejo de desejar não pode ter ponto final - e plasma elementos com forte apelo visual.
A descrição luxuriosa do ambiente (do quarto do sujeito) enche o ouvinte de vontade: transporta-nos para dentro da cena, faz-nos também atores, deliciando-nos com o veneno-remédio desta menina que nos dá o desassossego necessário à afirmação da alegria: do corpo, da carne em brasa.
Alegria que não cabe em si, o mundo é pequeno demais, o real não dá conta, é preciso fazer uma canção, cantar o encontro, perpetuar esta menina (aqui dentro do sujeito), inventar sobre aquilo que se deseja, sente e vive. Ela se embrenha em toda cama, todo lençol: ela é ela e está nele, é ele: seus olhos verdes no espelho.
Da musa fez-se o canto; a vida que se deve viver. Toda noite, no silêncio do quarto, o prazer solitário é interrompido, deliciosamente, por ela: só dá ela.
Por fim, como um Orfeu que se volta para confirmar se Eurídice lhe acompanha, o sujeito abre os olhos e percebe sua solidão: o calor e o corpo molhado são reflexos de sua criação ficcional mas, por isso, não menos verdadeira, já que ao cantar a menina ele deu vida a ela: que continuará, nem precisa chamar, levando-o a (trans)pirações noturnas.

***

Menina veneno
(Ritchie / Bernardo Vilhena)

Meia-noite no meu quarto
Ela vai subir
Ouço passos na escada
Vejo a porta abrir
Um abajur cor de carne
Um lençol azul
Cortinas de seda
O seu corpo nu

Menina Veneno
O mundo é pequeno demais pra nós dois
Em toda cama que eu durmo
Só dá você, só dá você,
Só dá você,

Seus olhos verdes no espelho
Brilham para mim
Seu corpo inteiro é um prazer
Do principio ao sim
Sozinho no meu quarto
Eu acordo sem você
Fico falando pras paredes
Até anoitecer

Menina Veneno
Você tem um jeito sereno de ser
E toda noite no meu quarto
Vem me entorpecer, me entorpecer
Me entorpecer,

Meia-noite no meu quarto
Ela vai surgir
Eu ouço passos na escada
Vejo a porta abrir
Você vem não sei de onde
Eu sei vem me amar
Eu nem sei qual o seu nome
Mas nem preciso chamar

Um comentário:

a sombra do papel disse...

Menina veneno.. canção perfume. tem cheiro de uma época. As vezes a gente se encanta com os primeiros acordes mais doces e deixamos de ouvir outras nuances. Nunca tinha reparado o verso"do principio ao sim...