Pesquisar canções e/ou artistas

25 novembro 2010

329. Tantinho

O comovente sermão anônimo O amor de Madalena, encontrado por Rainer Maria Rilke, começa dizendo que "Madalena, a santa amante de Jesus, amou-o em três estados. Amou-o vivo, amou-o morto, amou-o ressuscitado"; e termina observando que "Ela gosta mais de suas [do amor] privações do que de seus próprios dons e de seus favores". Madalena se alimenta de suspiros, de interditos, de pulsão e aniquilamento cíclicos.
Assim, penso, é o investimento da poesia: sempre fracassado e sempre gozoso, na tentativa de tocar o real, de desinstalar a vida. E assim também é o amor: nunca se completa (graças a deus!); tudo dá e nada pede. Claro que há um toque de ímpeto romântico aqui, mas ainda é preciso acreditar, penso, no amor.
Uma boa (e eficiente) obra de arte deve levar o fruidor a fazer conexões com outras obras e a ativar conhecimentos que, diante da nova obra, são colocados em questão. Carlinhos Brown, com sua inquietação contagiante, promove tais movimentações naqueles atentos à sua canção. Há um investimento no amor (sem rosto, sem nome: tropical e universal) que comove.
O sujeito da canção "Tantinho", de Carlinhos Brown (Odobró, 2010), aponta para uma alegria que, mais do que uma sensação, é um lugar. Independente do sujeito, a alegria é um espaço e uma projeção: uma geografia só atingida em coma de amor. Ou seja, o canto da vida (a canção que o sujeito compõe criando a sensação, no ouvinte, de que ela está sendo feita naquele instante da audição) é possível quando o indivíduo sabe que além do bem e do mal só há o bem e o mal: nada além, de uma ilusão.
É essa canção que faz o tempo passar doendo com menor intensidade. Para tanto, ela desliga a razão, fica odara, deixa os olhos livres. Eis que surge a exuberância: a poesia chove e o sujeito canta em línguas, tomado pelo espírito santo do amor.
No fundo, o sujeito de "Tantinho" cria uma genealogia afetiva da própria existência-de-si. Ele se ensaia: ele é mais uma função ("pro tempo passar") do que algo em si. Diz ao que veio: "Fiz essa canção (...) como sou feliz e sei que estou". A metacanção (canção que se autoficcionaliza, se autorepresenta) cria aproximações necessárias tanto à persona do sujeito, quanto à amada cantada, que é, noutro plano de interpretação, a própria vida.

***

Tantinho
(Carlinhos Brown)

Decunde Odá
Odara, Odara
Thiriririri Yara
Oh oh yeah
Dá, Odara, Odara
Thiriririri Yara

Fiz essa canção em coma de amor
Como sou feliz e sei que estou
Nunca amei ninguém um tantinho assim
Sem gostar de quem gostar de mim

Fiz essa canção pro tempo passar
Como estou só quero te abraçar
Se é ilusão desligue a razão
Pra bater feliz meu coração

Agora que subi ladeira, sossego
Que a poesia em minha horta, choveu
Eu te quero aqui
Bem-vinda à minha vida linda, calor
Você é vitamina, guia e é show
Vem grudar em mim

Por isso então dá-me tua mão
Por isso então dá-me tu amor

(So much Love)
Por isso então dá-me tua mão
(So much Love)
Por isso então dá-me tu amor
(So much Love)
Por isso então dá-me tu amor

Como I love you
Como I need you
E o meu coração só quer lhe amar
Como I love you
Como I need you
E só quer saber de andar colado

5 comentários:

Aline disse...

Essa música é realmente linda!!! Descobri ela tem um mes mais ou menos e fiquei super feliz quando a vi postada no blog!

Camila Lunelli disse...

Amei sua leitura de Tantinho! Eu procuro análises se músicas que gosto quando não encontro palavras pra materializar o que sinto. Com ela era assim, sentia uma alegria enorme, um acolhimento, mas não sabia expressar. Thanks. ;)

ADEMAR AMANCIO disse...

Esse compositor baiano quando acerta,acerta mesmo,"tantinho"é lindo demais.

Déborah disse...

Genial, parabéns! A música baiana nunca fez muito meu estilo, mas essa música me pegou.

JULIO DITOSO disse...

Muito linda de verdade! !!