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22 abril 2010

112. Uma canção desnaturada

Cantar é dar vida; é criar um suporte para a movimentação do indivíduo. Tal atitude está na nossa gênese: o útero materno (espaço paradisíaco e protetor). Daí se constitui nossa necessidade de música e narrativa: daí a importância da canção popular. Unindo letra (narrativa) e música - itens essenciais à nossa individuação - a canção popular supre necessidades ontológicas.
A voz da mãe, deste modo, cumpre papel fundamental na afirmação da existência do filho. O "simples" fato de ter dentro de si o outro, e cantar (abastecer) este outro, faz da mãe - da relação mãe-bebê - a peça chave de nossa existência. Obviamente, cada caso é um caso e merece ser analisado como tal.
Quando a mãe, portanto, canta uma canção de ninar, por exemplo, está, além de alentando o indivíduo diante do silêncio e da escuridão da noite, oferecendo palavra e melodia no tom de entendimento necessário ao infante (sem fala); estimulando a constituição de um "eu".
Em 1979, Chico Buarque compôs (e interpretou com Marlene), para a trilha de Ópera do malandro, uma canção que, aparentemente, destrói a dialogia harmônica mãe-filho: "Uma canção desnaturada".
Esta canção é um dos mais cruéis cantos de uma mãe, dirigida à filha. Nós, ouvintes, "presenciamos" um aterrador ajuste de contas: uma mãe desgostosa pelo caminho escolhido pela filha renega a cria.
A mãe renega a todo o percurso gerador da curuminha. Olha para a filha agora, adulta, e recua, retroativamente: espalhando versos que apontam o regresso até à escuridão do ventre. O ouvinte entra em viagem vertiginosa. A entoação da voz - pausas dramáticas e acelerações de exasperação - das vozes de Chico e Marlene, em conturbado diálogo, dá o tom da canção, desnaturada.
A voz materna, pela volta no tempo, quer desnaturalizar a criatura que tem diante de si: cindir a progressão natural da existência do outro. Pudesse esta mãe e reverteria o tempo, para vibrar (de alegria) a cada tropeço infantil, a cada choro noturno.
A filha não teria colo, leite, consolo, caso a mãe tivesse o poder de saber no que a cria se tornaria. A curuminha, que hoje sai maquiada dentro do vestido da mãe - rouba para si a figura da mãe: daí a ira da mãe? -, "pelo cordão perdido" seria e é (afinal, "praga" de mãe pega e desconstrói) recolhida à escuridão do ventre de onde não deveria ter saído: viva.

***

Uma canção desnaturada
(Chico Buarque)

Por que creceste, curuminha
Assim depressa, e estabanada
Saíste maquiada
Dentro do meu vestido
Se fosse permitido
Eu revertia o tempo
Para viver a tempo
De poder

Te ver as pernas bambas, curuminha
Batendo com a moleira
Te emporcalhando inteira
E eu te negar meu colo
Recuperar as noites, curuminha
Que atravessei em claro
Ignorar teu choro
E só cuidar de mim

Deixar-te arder em febre, curuminha
Cinquenta graus, tossir, bater o queixo
Vestir-te com desleixo
Tratar uma ama-seca
Quebrar tua boneca, curuminha
Raspar os teus cabelos
E ir te exibindo pelos
Botequins

Tornar azeite o leite
Do peito que mirraste
No chão que engatinhaste, salpicar
Mil cacos de vidro
Pelo cordão perdido
Te recolher pra sempre
À escuridão do ventre, curuminha
De onde não deverias
Nunca ter saído

2 comentários:

Renê Alberto disse...

É muito dura consigo mesma, e com o fruto gerado. Sempre hà tempo de reverter a pior situação. E o que era problema pode tornar-se centro de bela solução e centro de Vida.
Parabens ao Autor.
René da Ilha

Sérgio de Brito disse...

Uma das mais poderosas de Chico.
Editei esta obra com fotos de Vladimir Clavijo.Ficou bem interessante...
Confere.
Abraço.