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27 abril 2010

117. Canto das três raças

Nesta canção, as três raças básicas da formação do Brasil apresentam seu canto. Não apenas o canto enquanto emissão de sons, mas também o canto enquanto espaço físico (os limites de mobilidade de cada raça).
O índio canta, do cativeiro, o soluçar triste de quem teve a liberdade cerceada; o negro, trazido nos porões dos navios da escravidão, ecoam a revolta, do cativeiro (o quilombo não deixa de ser um espaço limitado); e o branco, em especial os inconfidentes, se juntam aos outros dois cantando o desejo de igualdade e fraternidade.
O canto das três raças é, assim, melancólico (pela perda do direito de ser humano: cidadão e sujeito),e dolorido (pela falta de perspectiva de reversão dos desígnos do destino forjado).
Cantada por Clara Nunes (Canto das três raças, 1976) - a personificação do guerreiro sincrético -, a canção condensa os signos de cada cultura a fim de significar a miscigenação (plantada em solo amargo) da raça brasileira.
A atualidade destes elementos primordiais é posta em cena pela presença do trabalhador de hoje: peça nas engrenagens do mercado devorador de almas e corpos. Ícone de "Construção", de Chico Buarque, por exemplo.
O canto das três raças, ou seja, brasileiro, é, portanto, sempre de dor. Em busca permanente de figuras paternas e maternas, das quais o Brasil foi destituído desde sua gênese enquanto nação, a melancolia (o banzo) atravessa a nossa absoluta falta (e desejo) de fraternidade. O coro, algo épico, em ôôô, indicia a força da união das três raças.
Ou seja, enquanto os três tristes tigres (as três raças) continuarem se devorando negativamente entre si, a tristeza não terá fim.

***

Canto das três raças
(Paulo César Pinheiro / Mauro Duarte)

Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil

Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou

Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou

Fora a luta dos Inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou

E de guerra em paz
De paz em guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor

E ecoa noite e dia
É ensurdecedor
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador

Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas
Como um soluçar de dor

2 comentários:

Samuel Machado Filho disse...

Foi uma coqueluche quando esta música saiu, em 1976. Melodia e letra primorosas, e sucesso merecido!

ADEMAR AMANCIO disse...

Muito bom esse samba não-exaltação.A Clara passou o recado direitinho,e você foi enxuto e certeiro mais uma vez.