Pesquisar canções e/ou artistas

21 abril 2010

111. Todas elas juntas num só ser

O nome da coisa não é a coisa em si. Nomear algo é lança-lo no mundo e, consequentemente, perde-lo. Como sugere Antonio Cícero, "no cofre não se guarda nada, no cofre perde-se a coisa vista". A metáfora pode ser usada para entender o sujeito de "Todas elas juntas num só ser", que não nomeia sua musa. Ela pode estar, neste momento, ao lado do ouvinte, mas ele não saberá.
Para cantar a mulher que detém a superioridade sobre todas as outras, ao concentrar a poética delas, o sujeito circula seu objeto de desejo através de metonímias que homenageiam "todas" as musas da canção popular.
A musa da canção fica intacta. Ela é ela. Sem nome, ela é do sujeito. Pertence a ele, que sabe que, ao não pronunciar o nome dela, a torna infinitamente sua.
Basta lembrar que Julieta ama Romeu porque ele se chama Romeu. Causa, também, da desgraça dos amantes, pois, se Romeu não carregasse o nome (familiar) odiado, o amor poderia ser possível.
O sujeito de "Todas elas juntas num só ser" (Lenine InCité, 2004) sabe ainda que é impossível tratar a coisa em si; que por mais que ele a nomeie, nunca chegará ao que ela lhe representa, ou seja, à singularidade desta mulher. Daí a cadeia de imagem-significantes que dão uma ideia do que ela é para ele.
Ele se perde (e é preciso se perder) no emaranhado de adjetivos traçados pelos grandes cantores (no sentido amplo) para deixar claro o caráter enigmático dela (sua mulher inominável). Ele viola a regra que manda identificar a musa. E ao criar a dúvida, o sujeito preserva, sabiamente, ela (mais que tudo e todas) só para si.

***

Todas elas juntas num só ser
(Lenine / Carlos Rennó)

Não canto mais Bebete nem Domingas
Nem Xica nem Tereza, de Ben Jor;
Nem Drão nem Flora, do baiano Gil;
Não canto mais Luiza, do maior;
Já não homenageio Januária,
Joana, Ana, Bárbara, de Chico;
Nem Yoko, a nipônica de Lennon;
Nem a cabocla, de Tinoco e de Tonico;

Nem a Tigreza nem a Vera Gata
Nem a Branquinha, de Caetano;
Nem mesmo a Linda Flor de Luiz Gonzaga,
Rosinha, do sertão pernambucano;
Nem Risoflora, a flor de Chico Science -
Nenhuma continua nos meus planos.
Nem Kátia Flávia, de Fausto Fawcett;
Nem Anna Júlia, do Los Hermanos.

Só você, hoje eu canto só você;
Só você,
Que eu quero porque quero, por querer.

Não canto de melô Pérola Negra;
De Brown e Herbert, uma brasileira;
De Ari, nem a Baiana nem Maria,
Nem a Iaiá também, nem a Faceira;
De Dorival, nem Dora nem Marina
Nem a morena de Itapoã;
De Vina, a Garota de Ipanema;
Nem Iracema, de Adoniran.

De Jackson do Pandeiro, nem Cremilda;
De Michael Jackson, nem a Billie Jean;
De Jimi Hendrix, nem a Doce Angel;
Nem Ângela nem Lígia, de Jobim;
Nem Lia, Lily Braun nem Beatriz,
Das doze deusas de Edu e Chico;
Até das trinta Leilas de Donato,
E da Layla, de Clapton, eu abdico.

Só você,
Canto e toco só você;
Só você,
Que nem você ninguém mais pode haver.

Nem a namoradinha de um amigo
E nem a amada amante de Roberto;
E nem Michelle-Ma-Belle, do Beatle Paul;
Nem Isabel - Bebel - de João Gilberto;
E nem B.B., La Femme de Serge Gainsbourg;
Nem, de Totó, na Malafemmená;
Nem a Iaiá de Zeca Pagodinho;
Nem a Mulata Mulatinha de Lalá;

E nem a Carioca de Vinicius
E nem a Tropicana de Alceu
E nem a Escurinha de Geraldo
E nem a Pastorinha de Noel
E nem a Namorada de Carlinhos
E nem a Superstar do Tremendão
E nem a Malaguenha de Lecuona
E nem a Popozuda do Tigrão

Só você,
Elejo e elogio só você,
Só você,
Que nem você não há nem quem nem quê.

De Haroldo Lobo com Wilson Batista,
De Mário Lago e Ataulfo Alves,
Não canto nem Emília nem Amélia:
Nenhuma tem meus vivas! E meus salves!
E nem Angie, do Stone Mick Jagger;
E nem Roxanne, de Sting, do Police;
E nem a Mina do Mamona Dinho
E nem as Mina - pá! - do Mano Xis!

Loira de Hervê e Loira do É o Tchan,
Lôra de Gabriel, o Pensador;
Laura de Mercer, Laura de Braguinha,
Laura de Arnaut Daniel, o trovador;
Ana do Rei e ana de Djavan,
Ana do outro Rei, o do baião:
Nenhuma delas hoje cantarei:
Só outra reina no meu coração.

Só você,
Rainha aqui só você,
Só você,
A musa dentre as musas de a a z.

Se um dia me surgisse uma dessas
Moças que, com seus dotes e seus dons,
Inspiram parte dos compositores
Na arte das palavras e dos sons,
Tal como Madelleine, de Jacques Brel,
Ou como Madalena, de Martinho;
Ou Mabellene e a Sixteen de Chuck Berry,
E a manequim do tímido Paulinho;

Ou como, de Caymmi, a Moça Prosa
E a musa inspiradora Doralice;
Se me surgisse apenas uma dessas,
Confesso que eu talvez não resistisse;
Mas, veja bem, meu bem, minha querida:
Isso seria só por uma vez,
Uma vez só em toda a minha vida!
Ou talvez duas... Mas não mais que três

Só você
Mais que tudo é só você;
Só você
As coisas mais queridas você é:

Você pra mim é o sol da minha noite;
É como a Rosa, luz de Pixinguinha;
É como a estrela pura aparecida,
A estrela a refulgir, do Poetinha;
Você, ó flor, é como a nuvem calma
No céu da alma de Luiz Vieira;
Você é como a luz do sol da vida
De Stevie Wonder, ó minha parceira.

Você é para mim e o meu amor,
Crescendo como mato em campos vastos,
Mais que a Gatinha para Erasmo Carlos;
Mais que a Cigana pra Ronaldo Bastos;
Mais que a divina dama pra Cartola;
Que a domna para Ventadorn, Bernart;
Que a Honey Baby para Waly Salomão
E a Funny Valentine pra Lorenz Hart.

Só você,
Mais que tudo e todas, só você;
Só você,
Que é todas elas juntas num só ser.

5 comentários:

Leca disse...

Esta postagem merece um comentário...
grande talento...Lenine...é uma imensa inspiração...

beijos gentis...
Leca

Neli Neves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
NeliN disse...

Leonardo, Gostei do seu estilo e aprofundamento nas palavras e sentidos ocultos. Bem uma descontrução...
Um abraço.
Neli

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) disse...

Leonardo,
Em 25 de março deste 2010, eu estampara no meu quintal de quimeras esta mesma joia rara da dupla Lenine&Rennó, precedida assim:
"Sabe aquelas 'pancadas' que você toma quando toma conhecimento da existência palpável - e audível - de certas obras-primas. Pois bem: estávamos indo pra Bahia, mais exatamente para Santo Amaro da Purificação, eu e Samuel de Abreu, no intuito de tentar conhecer Roberto Mendes, mago do violão. No meio da viagem, Samuca saca um CD do Lenine, põe pra tocar uma canção que eu ignaramente ainda não conhecia. E lá vou eu tomando aquela 'porrada' com a melodia, os versos e a interpretação ímpar do pernambucano arretado que só. Era "Todas Elas Juntas Num Só Ser", uma daquelas canções definitivas que nascem de cem em cem. Antes de chegarmos ao nosso destino, ainda mais uma pancadinha de leve: batemos o carro e saímos ilesos de um acidente considerado grave pelo guarda-rodoviário que já estava no local atendendo outra ocorrência grave (estradas brasileiras, aff!) e presenciou, incrédulo, toda a cinematográfica cena de dois caminhões sendo amassados por um valente Fiat Uno, que trazia a bordo dois dublês de compositores metidos a conquistar Roberto Mendes, o mago do violão. Obstinados, prosseguimos a viagem de ônibus e obtivemos a recompensa maior: o grande compositor baiano foi com a nossa alma e se fez nosso amigo num encontro que mais pareceu o reencontro de velhos conhecidos que se reviam depois de tempos. Tudo devidamente ciceroneado pelo guia cultural Robério, o Grego. E eu ainda fiquei no lucro maior (apesar das perdas e, danem-se os danos materiais...), por trazer na algibeira, além da amizade à primeira vista do mago do violão Roberto Caribé Mendes, esta canção que, se eu tivesse, daria mais mil veículos 1000, pra durarem exatos dois mil quilômetros, mas trazendo na bagagem de minha memória das águas "Todas Elas Juntas Num Só Ser"."
Aproveito toda a colheita com que me tenho fartado aqui para convidar-te a conhecer o CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos), pequeno jardim de lembranças e homenagens.
Prazer imensurável passear-me tuas 365, amigo paraioca.

Abraço mineiro,
Pedro Ramúcio.

Patrícia Buarque disse...

Lenine é de um talento indescritível! Composição perfeita, enigmática e deliciosa!

Bjus!

www.patriciabu.com.br