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27 junho 2010

178. Paisagem na janela

Para N. Etrikin, "nossas relações com o lugar tornam-se elementos na construção de nossas identidades individuais e coletivas". Nossa experiência com os espaços diz muito daquilo que somos, já que os lugares oferecem suportes para os nossos sentimentos, atos e omissões se desenvolverem.
O efeito da música na paisagem cultural (e vice-versa) é tema ainda pouco estudado. Ora positiva, ora negativa, mas nunca neutra, a imagem da paisagem interfere sim na feitura da canção (letra, música e performance).
O poeta é geógrafo. Ele traduz (cria), por assim dizer, a paisagem. O sujeito de "Paisagem na janela" (Clube da esquina, 1972, de Lô Borges e Fernando Brant, explora o apoio e a segurança do espaço íntimo para ver (a cantar) a sua percepção do mundo. Do particular, ele canta o coletivo: cria um mundo ideal. As paisagens (pintadas/cantadas) pelo sujeito são ficções plasmadas do ambiente.
Como sabemos, o quarto de dormir, oferecendo certa estabilidade (pelo suposto domínio da intimidade), é ponto de visão privilegiado para observar o mundo: "Da janela o mundo até parece meu quintal", como canta Milton Nascimento.
A paisagem pode mentir, por isso "você não quis acreditar". Afinal, as paisagens são ficcionais, o mundo não é tão objetivamente dado como a paisagem tenta imprimir. Ou seja, toda paisagem é representação (e vice-versa): só há paisagem quando esta é percebida. E o que fazer com o visível? Eis um dos trabalhos do artista.
A paisagem mineira, sem dúvida, pode ser percebida na canção "Paisagem na janela": seja no famoso "jeitinho mineiro" de entoar, seja nas imagens cantadas. Márcio Borges, no livro Os sonhos não envelhecem - histórias do clube da esquina, que cartografa a atuação da trupe de Minas Gerais na paisagem do som brasileiro, aponta: "Fomos hospedados num hotel colonial (...) meu quarto ficava numa ala do velho casarão que dava para uma praça principal, enquanto o de Fernando tinha janelas que se abriam para uma igreja e o cemitério da cidade. Com toda certeza isso foi a inspiração".
O visível se completa no invisível: o sujeito da canção canta o mundo a fim de ampliar o poder de sua esfera protetora: o quarto de dormir (espaço privilegiado dos sonhos). Ele manda na paisagem que cria. Amparado na (e pela) janela lateral, o sujeito toca o mundo. Mundo que não é identificado pelo outro (que não acredita), já que as paisagens são lugares de identidade individual, muito embora as práticas de representação sejam um movimento da vontade na busca do outro.

***
Paisagem na janela
(Lô Borges / Fernando Brant)

Da janela lateral do quarto de dormir
Vejo uma igreja, um sinal de glória
Vejo um muro branco e um vôo pássaro
Vejo uma grade, um velho sinal

Mensageiro natural de coisas naturais
Quando eu falava dessas cores mórbidas
Quando eu falava desses homens sórdidos
Quando eu falava deste temporal

Você não escutou
Você não quer acreditar
mas isto é tão normal
Você não quer acreditar
e eu apenas era

Cavaleiro marginal
lavado em ribeirão
Cavaleiro negro que viveu mistérios
Cavaleiro e senhor de casa e árvores
sem querer descanso nem dominical

Cavaleiro marginal banhado em ribeirão
conheci as torres e os cemitérios
conheci os homens e os seus velórios
quando olhava da janela lateral
do quarto de dormir

9 comentários:

Anônimo disse...

Muito legal sua análise. Sou arquiteto e achei bacana sua visão sobre paisagem relacionando com o individual e o coletivo. Adoro essa música.

Anônimo disse...

Cara, o legal da arte é realmente isto: cada um interpreta à sua maneira.
Eu já vejo que há uma nítida crítica à religião e o modo como as pessoas a encaram. Na música há um "diálogo" entre uma pessoa inocente que acredita nas pregações religiosas e outra bem mais experiente e que sabe que isso muitas vezes é um engano.
A primeira pessoa da música (no sentido de primeira pessoa do singular) é alguém com vivência suficiente e com reflexões já consolidadas sobre o ser em si e os seus valores e que enxerga a igreja de uma forma paralela que a outra pessoa referida na canção. Daí ele ver “uma grade e um velho sinal" (vide a história da igreja católica e o seu passado de mortes (inquisição) e o poder do dinheiro, comum a todas as religiões), e ao mesmo tempo ver aquilo que inicialmente a igreja transparece, como o lugar de dar asas à sua fé e a parede branca como um lugar no qual você poderá escrever uma linda história para a sua vida. Essa primeira pessoa é alguém que acredita nas coisas naturais e mais orgânicas da vida, sem apego à religião, principalmente as pessoas que estão por trás delas. A frase “lavado em ribeirão”, além de fazer alusão ao aspecto natural e orgânico (água), refere-se ao batismo bíblico feito no rio Jordão, que é a porta de entrada para a pessoa na religião.
A frase cavaleiro marginal reforça a visão paralela da vida da primeira pessoa, ao mesmo tempo em que tem o sentido dúbio de se referir a marginal, adjetivo com que é tratada a pessoa que não obedece aos ditames impostos pela religião.
Ao final ele diz que é normal o seu interlocutor não acreditar em coisas mais naturais e de gente com gabarito sobre os acontecimentos da vida, sendo preferível acreditar nos mitos de homens que só fazem enganar.
Bem, respeitando todas as opiniões contrárias, esse é o meu ponto de vista.

Anônimo disse...


Achei interessante a análise que vi no ggogle respostas (da Taynah Bertolino Ribeiro):

Esta música foi escrita no período da Ditadura Militar. Me parece uma pessoa que está presa! Perceba a primeira parte:
Da janela lateral do quarto de dormir (em nenhum momento ele diz que é o quarto dele, e sim apenas um lugar onde ele dorme)
Vejo uma igreja, um sinal de glória (a esperança dele sair salvo)
Vejo um muro branco e um vôo pássaro (muro da cadeia, o passaro seria a liberdade)
Vejo uma grade, um velho sinal (a grade!!!... da cadeia!)

Mensageiro natural de coisas naturais (Aqui seria a mídia, a imprensa, que foi censurada)
Quando eu falava dessas cores mórbidas (o clima pesado)
Quando eu falava desses homens sórdidos (os militares, torturadores)
Quando eu falava desse temporal (do caos que o país vivia)
Você não escutou (não escutou porque havia a censura! portanto nada podia se falar)

Você não quer acreditar (custa acreditar nos absurdos daquela época, e infelizmente era "normal", ou seja, comum)
Mas isso é tão normal
Você não quer acreditar

E eu apenas era
Cavaleiro marginal lavado em ribeirão (cavaleiro, aquele que lutava por um ideal, dai o motivo por estar preso!)
Cavaleiro negro que viveu mistérios (as reunioes contra o regime tinham q ser escondidas)
Cavaleiro e senhor de casa e árvores (pai de familia)
Sem querer descanso nem dominical (ele não ia sossegar enquanto nao conseguisse a democracia)

Cavaleiro marginal banhado em ribeirão
Conheci as torres e os cemitérios (torres=cadeias, cemiterios pois muitas pessoas eram assassinadas)
Conheci os homens e os seus velórios
Quando olhava da janela lateral (acredito que muitas pessoas eram mortas na frente de outros presos para que servissem de intimidação, por isso ele assistia "da janela lateral")
Do quarto de dormir

Wilalba Ferreira disse...

Neurose pura essa sobre ditadura!

Wilalba Ferreira disse...

Neurose pura essa sobre ditadura!

Anônimo disse...

Gostei muito sobre a música pelo aspecto da ditadura militar. Foi o mais coerente e mais fácil de perceber após explicação.

luciano disse...

As duas muito boas

Ana disse...

De todas as explicações sobre o significafo da letra, a do Anônimo me pareceu a mais adequada. Mas cada um interpreta como achar melhor.

Rose Silva disse...

"(...)"Paisagem na janela", de cuja história Fernando se recorda muito bem: "A história dessa música começou na casa dos meus pais, em Belo Horizonte. As pessoas acham que ela foi feita com base em paisagens de Diamantina ou aqui na minha casa, no bairro Cachoeirinha, mas é no bairro Funcionários, em Belo Horizonte mesmo. A janela lateral da letra está lá e a igreja que eu via era a Igreja de Lourdes".

A censura era uma preocupação dos letristas no início da década de 70 e Fernando tinha que encontrar formas de driblá-la: "'Ao que vai nascer' teve problema com a censura, mas 'San Vicente' passou batido. O Bituca fala que, por causa dessa música, a casa dele virou uma espécie de consulado latino-americano da música. A letra dela fala da América Latina e de tudo que acontecia por lá, mas eu consegui colocar de uma maneira mais amena. Já 'Ao que vai nascer' tinha uma parte em que eu falava algo como o 'Brasil é o país do futuro'. O próprio pessoal da Odeon me aconselhou mudar e eu mudei, mas consegui passar a mensagem assim mesmo"." (Trecho do livro Coração Americano, organizado por Andreia Estanislau) Fica claro pela própria declaração de Fernando Brant que a música trata mesmo de uma paisagem mineira, mas com certeza havia uma oi outra menção aos tempos difíceis da ditadura militar, assim como em quase todas as composições do disco.