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05 junho 2010

156. Desafinado

Bem a grosso modo, podemos dizer que a bossa nova é a mais completa tradução do uso dos saltos técnicos, proporcionados pelas possibilidades que o microfone oferecia; que João Gilberto, com sua batida de violão, aliada às novas sonoridades que a tecnologia dispunha e a busca pelo silêncio (em oposição ao "grito" de até então), é a mais completa tradução da bossa nova; E que "Desafinado", de Tom Jobim e Newton Mendonça, tematizando uma nova forma de cantar (e de registrar o canto) traduz o espírito do instante. Como o flash de uma rolleyflex.
O canto "enxuto", sem os floreios a pleno pulmões (era preciso cantar assim, para poder ter a voz captada pelos aparelhos de gravação), abre espaço para novas entoações, cada vez mais intimistas (sem os exageros necessários de antes) e, portanto, mais próximas da fala. Um modo de cantar que já havia sido anunciado no passado, com Noel Rosa e Mário Reis, por exemplo.
Muda a entoação. A partir de agora todos podem entoar/cantar, com aquilo que Deus lhes deu, sem, necessariamente, precisar de grandes esforços e virtudes vocais. Mesmo, e também, os desafinados, aqueles cujas vozes não serviam ao canto.
Como o que o sujeito faz é bossa nova (e "desafinar", ou seja, seguir outro caminho e ampliar as possibilidades da canção, é imperativo no "projeto bossa nova"), ele desafina do coro dos contentes e investe noutras fotografias, a fim de revelar outras imagens (ângulos, nuances) da canção.
Ainda rimando "amor" e "dor", as mensagens são cantadas (quase) ao ouvido do destinatário. O coração (musical) do sujeito argumenta que, mesmo o outro não gostando do som, o que importa é entender e aceitar o amor. Não importa a forma que o amor é cantado, o que importa é cantá-lo.
Mesmo no peito dos desafinados (esvaziado do excesso de paixão, ou seja, das oscilações de volume entre graves e agudos), bate calado (basta fazer silêncio para ouvir, como a atriz Camila Pitanga pede na capa do disco Voz e violão, 1999) um coração. O pulso (da canção) ainda pulsa. Noutro ritmo, mas ainda pulsa.

***

Desafinado
(Tom Jobim / Newton Mendonça)

Se você disser que eu desafino, amor
Saiba que isto em mim provoca imensa dor
Só privilegiados tem ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu

Se você insiste em classificar
Meu comportamento de antimusical
Eu, mesmo mentindo, devo argumentar
Que isso é bossa nova, que isto é muito natural

O que você não sabe, nem sequer pressente
É que os desafinados também tem um coração
Fotografei você na minha rolleyflex
Revelou-se a sua enorme ingratidão

Só não poderá falar assim do meu amor
Ele é o amor que você pode encontrar
Você, com a sua música
Esqueceu o principal

Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
No peito dos desafinados
Também bate um coração