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18 outubro 2010

291. Admirável gado novo

A ideia de controle social atravessada pelo conceito de "rebanho" é antiga: aparece, por exemplo, em Platão e vai se "sofisticando" até nossos dias. Do rebanho à sociedade, atravancados e ancorados na complexa relação Deus e Estado, os exercícios de poder se multiplicam.
O livro Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, de 1932, percorre a questão do controle apontando o (pré)condicionamento, biológico e psicológico, dos indivíduos que se perdem na massa, a fim de sustentarem uma sociedade forjadamente organizada: povo marcado, povo feliz.
Importa lembrar que este livro de Huxley deu origem (como matéria) aos 1984, de George Orwell, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, e Laranja mecânica, de Anthony Burgess. Entre tantos outros.
Esse projeto de futuro social (sem dúvidas e sem dor) é mote para a canção-toada "Admirável gado novo", de Zé Ramalho (Zé Ramalho 2, 1980). A voz épica, naturalmente trágica de Zé, empresta o drama necessário que a canção exige: o lamento - êôô - ao mesmo tempo reclama e guia, sem perspectiva de mudança.
A canção fala do enfraquecimento da vontade; da administração das forças, por um agente externo ao indivíduo; enquanto sopra o desejo de adestrar para produzir homens livres, distantes da domesticação que impõe servilismo.
A questão é que dor e prazer são forças reativas (nosso corpo orgânico é predominantemente reativo, adaptativo) mas, como, apesar de viver tão perto dela, o povo foge da ignorância (sente a ferrugem da engrenagem), há um devir criativo no corpo, urge encontrar mecanismos da vontade de poder, para além do bem e do mal: a desubstancialização da noção de poder.
O sujeito da canção, entre Zé do Caixão e uma das messalinas do inferno, tange o gado e canta o destino: eterno retorno do novo e igual modelo de vida. Anos mais tarde, a roqueira Pitty cantou a sintomática "Admirável chip novo", que, com verbos impositivos - "pense, fale, compre, beba, leia, vote, use, seja, ouça, tenha, more, gaste, viva" -, reconstrói e atualiza a imagética de Zé Ramalho do "Não senhor, Sim senhor".
"Admirável gado novo" canta a massa anônima: no campo não há individualidade, há não ser pelo número (povo marcado) que identifica. Por outro lado, quanto mais o poder é invisível, também, mais funciona.
Corpos dóceis, seguimos a canção enquanto a vigilância cuida do normal. O sujeito, cantor e mestre de seu povo, entoa a crueldade dos sistemas que o fazem contemplar a vida numa cela, afinal, como Foucault declarou: "a prisão existe para acreditarmos que estamos livres fora dela".

***

Admirável gado novo
(Zé Ramalho)

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber
E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer
Êh, oô, vida de gado
Povo marcado
Êh, povo feliz

Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal
E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou!
Êh, oô, vida de gado
Povo marcado
Êh, povo feliz

O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam esta vida numa cela
Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
A arca de Noé, o dirigível,
Não voam, nem se pode flutuar
Êh, oô, vida de gado
Povo marcado
Êh, povo feliz

Um comentário:

Alberto Júnior disse...

Para além da canção, está a mística de um artista ímpar da música popular brasileira.

Zé Ramalho confunde até os mais críticos com sua poesia que mistura misticismo, política, obscurantismo e uma força na voz que mais parece um trovão.

Quem há de negar que Zé Ramalho é a própria contracultura com sua imagem de bruxo, feia mesmo, que atrai os olhos pelos ouvidos, com a antivoz grave, sua guitarra que tem a medida certa do arranjo e sua mensagem intraduzível?

Aí voltamos à velha questão da essência da cultura popular refletida na música brasileira: é no nordeste que se concentra a base estética e a força da MPB.

Né-não?