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15 outubro 2010

288. Maracatú atômico

No livro Hibridismos musicais de Chico Science e Nação Zumbi, Herom Vargas, a partir da análise da cena mangue Beat, ensaia sobre o hibridismo e a canção popular na América Latina. Para o autor, "esse processo [da dinâmica mestiça] não aconteceu em outro lugar do mundo na mesma intensidade, com a mesma diversidade e igual ímpeto de violência e criatividade".
Nós, do continente latino-americano, temos uma potência genealógica de questionamento sobre os "conceitos e instituições trazidos de outras culturas". Sobrevivemos com um pé na soleira (entre tradicionalismos) e um pé na estrada (e entre modernidades): para além do bem e do mal, guardamos resíduos moralistas e, mas, incorporamos sincretismos libertários.
"Maracatú atômico", de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, deste modo, tenciona nossa mestiçagem étnica, material e simbólica: posto que põe na gira elementos de uma fauna e flora pau-brasil, misturados a signos melódicos das novas tecnologias. A canção condensa, de fato, imagens comuns, de massa, mas apresentadas sob metáforas que confundem e fazem a imaginação girar.
Não à toa, a canção virou um dos maiores sucessos do grupo Nação Zumbi. Gravada no disco Afrociberdelia (1996), "Maracatú atômico", que já havia sido interpretada por Giberto Gil (Cidade de Salvador, 1973) e pelo próprio Mautner (Jorge Mautner, 1974), se encaixou no projeto de investigação das misturas sonoras do grupo.
O título da canção, em si, já guardava o núcleo duro da cena mangue: a ideia da antena fincada na lama: tradição e modernidade, com todos os bons e maus resultados dessa troca circular.
O arranjo que une tambor (gonguê, ganzás e chocalhos) e tecnologia eletrônica; a colagem de conceitos critalizados, na cultura; e a criação imagética de um maracatu em movimento (esta é a sensação que se tem durante a audição da canção, semelhante àquela experimentada quando se ouve "A banda", de Chico Buarque, por exemplo) foram assimilados pelos ouvintes como porta-estandarte do Nação Zumbi.
Ecologia e futuro ensaiam uma dança psicodélica. Fragmentos da negritude e dos indígenas, aliados à produção de influência ibérica dos armoriais, são postos no liquidificador, a fim de obter o segredo mais sincero: a luz e a fé no presente: na realidade fluida e pastosa; porém, rica e alegre, apesar da crueza.
"A música é uma coisa que você recicla. Você pega o velho e faz o novo. Pega o novo e faz o velho. É um pouco como a teoria do caos", disse Chico Science. E quem melhor que Jorge Mautner, autor da Teoria do Kaos, para "prever" um maracatu atômico?
Dobrando e desdobrando, aquilo que tem dentro e tem fora, tem em cima e tem em baixo, tem no meio e tem adiante, "Maracatú atômico" esclarece, noutra dimensão, que superfície e profundidade se equivalem; que aparência e essência merecem o mesmo olhar agudo, para o entendimento e construção da felicidade.

***

Maracatú atômico
(Nelson Jacobina / Jorge Mautner)

Atrás do arranha-céu, tem o céu, tem o céu
E depois tem outro céu sem estrelas
Em cima do guarda-chuva , tem a chuva, tem a chuva
Que tem gotas tão lindas que até dá vontade de comê-las

No meio da couve-flor, tem a flor, tem a flor
Que além de ser uma flor tem sabor
Dentro do porta-luva, tem a luva, tem a luva
Que alguém de unhas negras e tão afiadas esqueceu de pôr

No fundo do para-raio, tem o raio, tem o raio
Caiu da nuvem negra do temporal
Todo quadro-negro, é todo negro, é todo negro
E eu escrevo o seu nome nele só pra demonstrar o meu apego

O bico do beija-flor, beija a flor, beija a flor
E toda a fauna a flora grita de amor
Quem segura o porta-estandarte, tem arte, tem arte
E aqui passa com raça eletrônico, maracatu atômico

O bico do beija-flor, beija a flor, beija a flor
E toda a fauna a flora grita de amor
Quem segura o porta-estandarte, tem arte, tem arte
E aqui passa com raça eletrônico, maracatu atômico

3 comentários:

Rodrigo Faour disse...

Gosto mais da gravação original de Gil, pra mim, "imexível" (risos)

Alberto Junior disse...

concordo com o @rodrigofaour que o registro do Gil para maracatu atômico é o mais forte, sobretudo no arranjo.

a sombra do papel disse...

Gosto da versão elaborada do Gil, mas não dá pra comparar com a versão de Nação. Não é que uma seja melhor do que outra, mas é simplesmente porque a inclusão das percussões do maracatu, da guitarra psicodélica, dos ogans nos tambores e alfaias produzem uma outra dimensão na canção, um outro ambiente. - É como se fossem duas estruturas com linguagens muito diferentes.