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07 outubro 2010

280. Pagu

Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, é tomada neste blues de Rita Lee e Zélia Duncan como signo do elemento feminino. Simplesmente mulher, Pagu usou sua voz em defesa da participação ativa da mulher nos debates sociais e políticos.
O apelido foi cunhado pelo poeta Raul Bopp, que escreveu "O coco de Pagu": poema cujos versos "Pagu tem os olhos moles / uns olhos de fazer doer" parecem dizer muito da personalidade forte da militante, que, em seus artigos para o jornal "O homem do povo" criticava as "feministas de elite". O que, como podemos supor, incomodava muita gente.
O sujeito da canção "Pagu" (guardada no disco 3001, 2000), em que Rita Lee divide os vocais com Zélia Duncan, parceira de composição, assume a persona de Pagu - o olhar crítico sobre o desempenho da mulher na sociedade - para dar voz àquela mulher que não aparece nas médias (que é rainha do tanque), mas que faz a diferença no motor da máquina social.
Mexendo e remexendo nas cinzas da inquisição, quando Joana D'arc foi queimada por "ver, ouvir e falar demais", para uma mulher, por exemplo, a voz da canção afirma um tipo de canto que só quem já sofreu (e sofre) os horrores do sexismo (religioso e cultural) consegue entoar.
Presa como militante comunista, Pagu é signo e símbolo do enfrentamento direto com o "estabelecido", com aquilo que é posto como obrigação. A Pagu da canção, é uma e é tantas (devassa e santa; recatada e vulgar, como Sílvia Machete canta em "Simplesmente mulher").
A Pagu cantada por Rita e Zélia tenciona a beleza de ser e estar mulher: com o buraco mais em cima. Ou seja, seu buraco é a boca: por onde ela come o mundo masculino, e pretensamente superior, e devolve (fala, grito e canto) sua indignação.
Aqui, as duas Pagus (a Patrícia e a personagem) se cruzam: são lemas, porta estandartes da euforia feminina: que diz não aos apelos mediáticos (silicones e tais); são donas de casa (operárias do lar), pessoas comuns, como se supõe que seja a ouvinte (destinatária da canção), que lava roupa enquanto ouve rádio e se sente convidada à revolução.
No mundo em que as médias nos sugerem que o importante é ser "star" (ter um milhão de seguidores), para a mulher da canção o que importa é ter voz. A nova revolução é ser de carne e osso, negando os meios insossos de contato e comunicação: rompendo padrões e acendendo belezas por dentro.
O quadro proposto fica evidente quando a figura da feiticeira é trazida à tona: a feiticeira daqui não é aquela corcunda e nariguda da ficção, mas a moça da tv que usa um véu e mexe com a imaginação dos homens de plantão, além de bulir com os "eus" e desejos (de corpo) das mulheres.
"Eu sou o que sou" vaza dos versos da canção, cheia de "cacos" sonoros e sintáticos em off: tematizando os resíduos históricos que formam a mulher contemporânea: "pau pra toda obra", filha de uma "Maria ninguém" e "nem freira, nem puta": uma terceira margem, por tudo, mais consciente de que viver é assumir que "acertar é humano" e persistir no acerto é ser mulher - é ser "mais macho que muito homem".

***

Pagu
(Rita Lee / Zélia Duncan)

Mexo, remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão

Eu sou pau pra toda obra,
Deus dá asas à minha cobra

Minha força não é bruta,
não sou freira nem sou puta

Porque nem toda feiticeira é corcunda,
nem toda brasileira é bunda

Meu peito não é de silicone,
sou mais macho que muito homem

Sou rainha do meu tanque,
sou pagu indignada no palanque

Fama de porra-louca, tudo bem,
minha mãe é Maria ninguém

Não sou atriz, modelo, dançarina
Meu buraco é mais em cima

Porque nem toda feiticeira é corcunda,
nem toda brasileira é bunda

Meu peito não é de silicone,
sou mais macho que muito homem

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