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30 setembro 2010

273. Três travestis

O seu pouco conhecido frevo “Três travestis”, de Caetano Veloso, serve como pretexto para pensarmos várias questões. A canção composta em 1977 para Ney Matogrosso cantar, mas só foi registrada em um compacto de 1982 (e relançada no cd Negritude), por Zezé Motta, em uma afetada e divertida interpretação que investe nas rimas em /is/ e /a/.
A canção apresenta uma cadeia metonímica de significantes para traçar a imagem de três travestis que se expõem aos olhos dos clientes numa praça qualquer. Ele explora também as especificidades do travesti como figura da noite e como produto de exportação nacional. Diz o final da letra: "Três travestis, três colibris de raça, deixam o país e enchem Paris de graça".
Ao trabalhar o corpo montado do travesti (figura que ameaça, mina e trinca a perspectiva da sociedade homogênea) o frevo de Caetano mostra como um tema cheio de arestas insuspeitadas pode servir à criação artística, sem panfletarismos ou moralismos, ambos esterilizantes.
A coexistência de significantes masculinos e femininos arranha a imagem do macho: que é, no fundo, um “travesti ao contrário”, como afirmou Severo Sarduy, no livro Escrito sobre um corpo, ao analisar a figura do travesti na literatura. Porém, é também uma repulsa que suscita e subverte-se em atração e sedução para muitos. Figura da noite, seu corpo é dos errantes: dos que buscam saciar desejos reprimidos, durante o dia. Pois, à luz do sol, às vistas de todos, “ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir”, como a Geni da canção de Chico Buarque.
Aliás, o próprio artigo que antecede a palavra "travesti" (o ou a?) merece atenção: funde a cuca de quem tenta entender. Caetano revolve isso sem definir: mantem o neutro da figura - não é ele, nem ela - é uma terceira margem. Mais conhecida do grande público, dentre as canções que tematizam tais questões, “Eu sou neguinha?” (1987) é bastante importante.
Nela, a ameaça do sujeito híbrido é incorporada pelo próprio sujeito que não consegue se definir dentro dos limites. Ao invés da busca pela identidade, busca-se a singularidade do sujeito. O sujeito é um enigma, uma interrogação. E sente que o bom é ser assim. Reconhece intimamente, com certa inquietação, que não existe um critério único de verdade senão não concordar consigo mesmo e joga a pergunta para o ouvinte, também confuso.

***

Três travestis
(Caetano Veloso)

Três travestis
Traçam perfis na praça.
Lápis e giz
Boca e nariz, fumaça.

Lótus e liz
Drops de aniz, cachaça
Péssima atriz
Chão, salto e triz, trapaça

Quem é que diz?
Quem é feliz?
Quem passa?

A codorniz
O chamariz
A caça

Três travestis
Três colibris de raça
Deixam o país
E enchem París de graça

2 comentários:

Por que você faz poema? disse...

Música cantada por Caetano nos shows antes do Zii e Zie - quem sabe não aparece a versão do autor no DVD?

ademar amancio disse...

Boa sacada associar os travestis com a personagem geny do chico buarque.