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12 setembro 2010

255. Bola de meia, bola de gude

Nietzsche, pela voz de Zaratustra, fala que “em todo o verdadeiro homem se oculta uma criança: uma criança que quer brincar”. É esta criança que salva o homem da crueldade (banalidade e normatividade) da existência; é ela quem tempera nossas faltas e certezas; é ela quem segura a mão do adulto quando ele desequilibra - vacila, balança.
Há, em nós, humanos, uma necessidade (inconfessável) de alento, de colo: espaço imaginário que nos permite entrar na região dos encantamentos, mas que só tem seu acesso possível quando cindimos com nossas verdades; quando nos permitimos dobrar (e suspender) a razão; quando deixamos o menino (o moleque), que mora em nosso coração, brincar. Felicidade maior não há: liberdade.
Obviamente, não estamos falando aqui de ser imaturo, ou de negar (sem o pensar) o lado mau, e necessário, da vida: exemplos não faltam de indivíduos que (hedonistas) parecem eternas, e falsas, crianças. Pelo contrário, falamos daquele estado, ou do “espírito jovial” apontado por Heidegger, próprio da infância em que o mundo ainda não está automatizado.
Dito de outro modo, a criança, aqui, representa o acesso livre à vida: sem os crivos, (en)traves e (pre)conceitos que tanto atrapalham a liberdade. Olhar o mundo com os olhos de criança é ter prazer sem teorizações sobre o objeto de gozo: é ter "olhos livres", como sugeriu Oswald de Andrade.
Ser e estar criança é montar o desmontar as conexões do mundo com a mesma disposição e desprendimento; é, grosso modo, fazer do limão uma limonada - cair e levantar, para cair de novo (e de novo), mas sempre aberto à ousadia de continuar levantando.
Eis o menino que mora no coração do sujeito da leve e cirandeira canção "Bola de meia, bola de gude", de Milton Nascimento e Fernando Brant. Aliás, o tema ciranda é sintomático, neste caso, pois remete o ouvinte à brincadeira coletiva e infantil: girar e cantar de mãos dadas a roda-viva. Além da clara referência aos esportes (também) coletivos que a bola (de meia ou de gude) nos oferece.
De fato, o universo infantil parece nos querer dizer algo. Algo que perdemos no meio do caminho em direção à fase adulta, quando tapamos nossos ouvidos, motivados pelas cobranças do mundo. A canção, que cantada coletivamente pelo grupo 14 bis (14 bis 2, 1980) ganha novos sentidos, sugere que há sempre, como Nietzsche propõe: “um novo começar (...), uma roda que gira sobre si, um movimento” de criação eterna.
A criança em nós (passado no presente) celebra a existência sem pecados e sem juízos: afirma a vida. Aproveita o sol quente no quintal, pois, o seu quintal parece (e é) o mundo. A criança em nós nos suspende, falando-nos de coisas que não deixarão de existir: amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor.

***

Bola de meia, bola de gude
(Milton Nascimento / Fernando Brant)

Há um menino, há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão

Há um passado no meu presente
Um sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra
O menino me dá a mão

E me fala de coisas bonitas
Que eu acredito que não deixarão de existir
Amizade, palavra, respeito,
Caráter, bondade, alegria e amor

Pois não posso, não devo, não quero
Viver como toda essa gente insiste em viver
E nao posso aceitar sossegado
Qualquer sacanagem ser coisa normal

Bola de meia, bola de gude
O solidário não quer solidão
Toda vez que a tristeza me alcança
O menino me dá a mão

Há um menino, há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão

3 comentários:

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

Bela interpretação da canção do 14 Bis, aliás este disco é todo espetacular, traz ele ainda a participação do Renato Russo em Mais uma vez

Bruno Lima disse...

Essa é, a meu ver, uma das músicas mais lindas da MPB.

Abração!

André disse...

Cada dia que passa, fico mais seu fã.
Genial!!!!!