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10 setembro 2010

253. O que me importa

Seguindo a linha de leitura de Nelson Motta, autor da deliciosa biografia Vale tudo - o som e a fúria de Tim Maia, a canção "O que me importa", de Cury, entra na obra de Tim naquele grupo denominado de "mela cueca".
Sim, na obra de nosso, autodefinido, "preto, gordo e cafajeste, formado em cornologia, sofrências e deficiências capilares", há dois direcionamentos básicos: "Molha suvaco" - canção para dançar e fever; e "Mela cueca" - canção para o sarro (amasso) gostoso.
Nas canções "mela cueca", Tim Maia baixava, a mais não poder, a potência de sua voz trovão (cápsula de integração do funk com o soul), para fazer vibrar outras emoções em quem lhe ouvia. Sussurros de um grande sujeito em desamparo, soltos ao pé do ouvido, que comoviam. Havia uma (quase) contradição entre a figura exuberante do cantor e os timbres que ele conseguia, a fim de dar à canção o ritmo exato.
Gravada no disco Tim Maia (1972), "O que me importa" traz um sujeito em completa apatia: anestesiado diante do sofrimento do outro, que agora parece chorar aquilo que o sujeito, outrora, chorou. Típico fim de relação na qual um imprime, no outro, as mágoas que sufocaram os bons sentimentos.
Sem perspectiva (de vida: com o fim do amor), nada mais tem importância. O canto vira lamento, saudade de acontecimentos que não existirão e dor. Agora é tarde para qualquer tentativa de recuperação: o tempo dos dois juntos passou e, infelizmente, as belezas se apagaram dando lugar ao rancor, às cobranças e ao desamor.
Ter o carinho e a adoração do outro, já não tem mais razão de ser, quando o amor vacila. As lágrimas do sujeito agora minam pelos olhos do outro. E, talvez o mais importante, quando o sujeito quis ter seu nome cantado pelo outro (o que daria, e sustentaria, a vida do sujeito) isso lhe foi negado. Agora é tarde demais: os ouvidos já estão tapados, com a cera que isola o sujeito do canto da sereia.
Interessante atentar para o fato de que, no final, ao contrário do que superficialmente pode parecer uma revanche ("eu sofri, agora sofra"), quem mais sente a pressão do fim é o sujeito (dado à vida pela voz impagável do indomável Tim Maia em mergulho, sem paraquedas, dentro de si), justamente por ter acreditado e investido na possibilidade da relação.
Aqui sugiro outra direção (desdobramento do "mela cueca") no cancioneiro de Tim Maia: a "molha beira", ou seja, aquele tipo de canções feitas para quando a vida termina; feitas para ser ouvidas sozinho: feitas para chorar (molhar a beira dos olhos) no silêncio da noite, juntando os caquinhos de um velho mundo e imaginando "nós dois".

***

O que me importa
(Cury)

O que me importa
Seu carinho agora
Se é muito tarde
Para amar você

O que me importa
Se você me adora
Se já não há razão
Prá lhe querer

O que me importa
Ver você sofrer assim
Se quando eu lhe quis
Você nem mesmo soube dar
Amor

O que me importa
Ver você chorando
Se tantas vezes
Eu chorei também

O que me importa
Sua voz chamando
Se prá você jamais
Eu fui alguém

O que me importa
Essa tristeza em seu olhar
Se o meu olhar tem mais
Tristezas prá chorar
Que o seu

O que me importa
Ver você tão triste
Se triste fui
E você nem ligou

O que me importa
Seu carinho agora
Se para mim
A vida terminou

Um comentário:

Por que você faz poema? disse...

"Melacueca" ou não
ainda assim é um grande
momento.