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05 setembro 2010

248. Ponteio

Para Roncalli Pinheiro

A canção "Ponteio", de Edu Lobo e Capinam, sintomaticamente, abre e fecha o filme Uma noite em 67. O documentário (re)apresenta a noite de 21 de outubro de 1967, em que a canção, via final do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, tomava para si a figura de Janus: deus híbrido que tem uma cabeça virada para frente e outra virada para trás: olhar para o novo (que sempre vem) e para o passado (que nos constitue).
De fato, despretensioso, o filme corre tranquilo (sem nenhum arroubo técnico ou estético) e atinge seu objetivo: sugerir o clima da noite mítica. Os depoimentos atuais das principais personagens cindem a continuidade do programa televisivo, cindindo, de viés, as marcas do tempo: reavaliação e confirmação das sensibilidades estéticas entram no jogo fílmico.
Mas voltando a "Ponteio" - a grande campeã da noite -, podemos dizer que o sujeito da canção deixa escapar a sensação de que algo se quebrou, está se quebrando: certa delicadeza, representada pela figura da viola que foi jogada no meio do mundo: se perdeu no fio da vida.
A viola, com sua ligação direta com o que há de mais interior do povo brasileiro (e aqui ideias de raíz, nação e engajamento atravessam a voz do sujeito), começa a "perder" a guerra contra a guitarra elétrica (símbolo da devastação cultural norte-americana na nossa "pura" cultura).
Deixando de lado a questão mercadológica (afinal estava em questão o uso das mídias de massa), podemos pensar que a MPB, que indicia certo engajamento politicamente crítico, representada por "Ponteio", entra em guerra com a Jovem Guarda de Roberto Carlos, e seu colorido pop supostamente alienante.
É certo que a Tropicália (no horizonte), representada na noite do Festival por "Alegria, alegria", de Caetano Veloso e "Domingo do parque", de Gilberto Gil, une as duas forças aparentemente antagônicas e aponta um novo sonho feliz de cidade: a convivência dionisíaca dos opostos como característica fundadora e fundante do Brasil.
Deste modo "Ponteio" se identifica com a tradição, que luta contra o imperialismo do norte do continente. "Ponteio" canta um país para o brasileiro, tendo as modas de viola como modelo: a parte que nos cabia no latifúndio.
O romantismo de massa (aquele que tenta arrastar multidões em defesa de uma causa: "era um, era dois, era cem") começa a ceder lugar para novas possibilidades de enfrentamento do sufoco histórico-político de então. Enquanto "Ponteio", portanto, dava voz a certa figura nordestina (cantador/violeiro que carrega no canto a cultura do povo brasileiro, em alguma feira do nordeste, em troca de algum dinheiro para sobreviver), "Alegria, alegria" tem um sujeito que quer ir (sem saber para onde, nem porque): por que não?
Por isso que, mais do que anedótica, o gesto de Sérgio Ricardo, em quebrar o violão ao ser vaiado e não conseguir apresentar sua canção, na tal noite, é iluminador, além de irônico: pois logo depois a canção vitoriosa diria em seu famoso refrão: "quem me dera agora eu tivesse a viola para cantar". Mas a viola fora destruída.
O contracanto de Marília Medalha aponta a resposta do povo (que ouve o violeiro e quer segui-lo), dramatizando a crise interna da história cantada: juntos, todos seguem o caminho rumo à glória nacional. A viola é a glória nacional e precisa ser salvaguardada dos "ataques" perpetrados pela guitarra elétrica.
O sujeito de "Ponteio" sente a delicadeza minar. Aliás, basta prestar atenção às figuras que circulam e falam no filme para uma ponta de sensação de que muita coisa mudou: havia um clima de ingenuidade sadia e alienada, seja nos comentários (hoje) bobos dos apresentadores, seja na gestualidade física de todos.
Em "Ponteio", o sujeito conta sua história, de como faz parte de sua missão cantar a vida de sua gente: mostrar o caminho que leva o povo à redenção. Ele, sendo humilde e "da terra" é o guia intelectual: carrega na voz o saber de uma verdade coletiva. Ele, que sempre promete um novo ponteio, é o narrador que estabelece o prumo da história.

***

Ponteio
(Edu Lobo / Capinam)

Era um, era dois, era cem
Era o mundo chegando e ninguém
Que soubesse que eu sou violeiro
Que me desse ou amor ou dinheiro

Era um, era dois, era cem
Vieram pra me perguntar
Ô, você, de onde vai, de onde vem
Diga logo o que tem pra contar

Parado no meio do mundo
Senti chegar meu momento
Olhei pro mundo e nem via
Nem sombra, nem sol, nem vento

Quem me dera agora
Eu tivesse a viola pra cantar

Era um dia, era claro, quase meio
Era um canto calado, sem ponteio
Violência, viola, violeiro
Era morte em redor, mundo inteiro
Era um dia, era claro, quase meio
Tinha um que jurou me quebrar
Mas não lembro de dor nem receio
Só sabia das ondas do mar
Jogaram a viola no mundo
Mas fui lá no fundo buscar
Se eu tomo a viola ponteio
Meu canto não posso parar, não

Quem me dera agora
Eu tivesse a viola pra cantar
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola pra cantar

Era um, era dois, era cem
Era um dia, era claro, quase meio
Encerrar meu cantar já convém
Prometendo um novo ponteio
Certo dia que sei por inteiro
Eu espero, não vá demorar
Este dia estou certo que vem
Digo logo o que vim pra buscar
Correndo no meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar pra cantar

Quem me dera agora
Eu tivesse a viola pra cantar
Encerrar meu cantar
Já convém
Prometendo um novo ponteio
Certo dia que sei
Por inteiro
Eu espero não vá demorar
Esse dia estou certo que vem
Digo logo o que vim
Prá buscar
Correndo no meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar prá cantar

Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Prá cantar
Ponteio

Um comentário:

a sombra do papel disse...

leo,
Adoro essa música. Vi novamente Edu Lobo e Medalha no youtube defendendo a canção no festival. Edu tem algo entre o nordeste e sudeste bem resolvido, equilibrado e com sofisticação.
Obrigado pela lembrança, Leo.

PS.: Agora gostei mesmo foi do texto "sabes mentir".