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31 agosto 2010

243. Mulher sem razão

Para Rodrigo Faour

"Mulher sem razão", de Dé, Bebel Gilberto e Cazuza, é um convite na medida em que o sujeito (masculino) aponta os enganos que certa mulher está vivendo, afim de persuadi-la a seguir com ele. Da escuridão do quarto (onde o coração bate travado, por ninguém e por nada) para onde ele sabe que os dois vão brilhar.
Saia (desta situação) e caia (na realidade) são imperativos utilizados pelo sujeito. Eles ordenam (como tapas na face) o despertar da consciência: da razão. Não é possível que ela, querida (e cantada) pelo sujeito, aceite continuar nessa vida de migalhas.
O interessante é que, para ela "acordar" (desperte a razão de si, para a vida), ele lhe manda ouvir o coração, quebrando ideia de que pensamento não tem relação com sentimento. Basta sentir para pensar (e vice versa) na sua vidinha chinfrim e ela perceberá que merece mais: e o sujeito é mais. Afinal ele a canta: aquela canção que não toca no rádio, pessoal e intransferível.
A mensagem da canção é direta: tivemos um lance; você gostou; e agora é de você assumir. Chega de contos de fadas: a realidade, que é sempre ficção (construída pelo canto do sujeito), é mais ou menos o que nós queremos.
Mas quem é este homem? E porque ela deve dar razão a ele? Gravada algumas vezes, "Mulher sem razão", na voz de Ney Matogrosso (Beijo bandido, 2009), ganha contornos de pura dança e glória do desejo: ampliados pelo jogo erótico do arranjo de pegada forte, com seus violinos nervosos.
Para o pesquisador Rodrigo Faour (no imprescindível livro História sexual da MPB), Ney Matogrosso, seguindo carreira solo (1975), "o contraste de seu peito nu, peludo, com aqueles signos femininos, fundiu a cabeça de muita gente. E as excitou também". Ainda hoje é assim: Ney, sua voz rara, sua presença física, estranha atitudes pseudo éticas em nós: estimula a afirmação da existência.
Tal qual como quando gravou "Mesmo que seja eu" (um homem pra chamar de seu), desdobrando a mais não poder o sentido da letra, ao cantar "Mulher sem razão", com a sensualidade que lhe é intrínseca, Ney, botões abertos da camisa (brincando com o fetiche do cafajeste), dá nó na razão: suspende certezas e "diz" que o desejo pode ir muito mais além.
Ele materializa (personifica, figura) o homem que pode dar mais a esta mulher de vida ordinária: cheia de homens comuns, mais do mesmo. Ele, o homem por trás da voz na canção (do som que a encantou), que canta a canção que não toca no rádio (é exclusiva dela: da mulher sem razão), é o desvio (tensão flutuante, sem pecado e sem juízo, portanto, são) na rota: necessário ao salto para a vida de qualquer um.
Cada verso, dito na malemolência safada (e autoral) de Ney Matogrosso, é toque - beijo bandido - da vontade de fisgar essa mulher. Ele, homem dela, canta-lhe a vida: diz as verdades (mentiras sinceras) exatas para mantê-la viva. Afinal, "sonhar só não dá em nada: é uma festa na prisão". Viver de verdade só se for a dois. Como Noel Rosa registrou, "a razão dá-se a quem tem": e quem há de negar que ela não é dele?

***

Mulher sem razão
(Dé / Bebel Gilberto / Cazuza)

Saia dessa vida de migalhas
desses homens que te tratam
como um vento que passou

Caia na realidade fada
olha bem na minha cara
e confessa que gostou

do meu papo bom
do meu jeito são
do meu sarro, do meu som
dos meus toques pra você mudar
mulher sem razão
ouve o teu homem
ouve o teu coração
ao cair da tarde
ouve aquela canção
que não toca no rádio

Pára de fingir que não repara
nas verdades que eu te falo
dê um pouco de atenção

Parta, pegue um avião, reparta
sonhar só não dá em nada
é uma festa na prisão

Nosso tempo é bom
e nós temos de montão
deixa eu te levar então
pra onde eu sei que a gente vai brilhar
mulher sem razão
ouve o teu homem
ouve o teu coração
batendo travado
por ninguém e por nada
na escuridão do quarto

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