Pesquisar canções e/ou artistas

10 agosto 2010

222. Consumado

Não há como distinguir a produção de canção popular massiva dos suportes técnicos onde tal peça será armazenada (para circular). A história da canção mostra que as condições de consumo (mutantes) impõem soluções e gestos estéticos à feitura da canção.
O aparato mediático, em si, já faz parte da obra. E isso implica nas tomadas de posição do mercado fonográfico. Certamente, consumir canção via LP (vinil) é diferente do consumo via mp3, por exemplo. Para o artista, o produtor, a gravadora, enfim, todos os envolvidos, inclusive o consumidor, é importante perceber as condições de consumo.
Gravada (guardada) no disco Saiba (2004), a canção "Consumado", de Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte, se caracteriza por recolher e apresentar em si uma variação das dicções da canção popular massiva brasileira (mistura de ritmos - rock, funk, iêiêiê...), a fim de seduzir e ser consumida (de leve) pelo ouvinte.
O matreiro recurso de usar marcas da oralidade - "tô" - ajudam a aproximar o ouvinte da canção e, assim, o sujeito obtém seu objetivo: ser consumido pelo outro. A vontade é construir uma canção que, de tão simples (sem grandes intenções de arrebatamento) e complexa (condensando gostos e quereres) possa tocar em qualquer lugar (e a qualquer hora) e ser consumida "facilmente".
Sem exigir muito do ouvinte ela, ao contrário, atende às necessidades (musicais e de vida) do outro. Ao proliferar e condensar (ao mesmo tempo, e no mesmo espaço) temáticas e estéticas da canção massiva (aquela que toca no rádio e na TV, ou seja, nos veículos mediáticos), o sujeito da canção tenta (como as sereias homéricas) seduzir o ouvinte: arrastando-o para a vida-morte.
A canção popular, regida pelas leis de mercado, reflete e refrata, as exigências do público (históricas e idiossincráticas) e do próprio sistema de circulação. O sujeito quer, utilizando tal engrenagem, fazer uma canção que não precise de subterfúgios (o famigerado jabá citado na letra, por exemplo) para tocar.
Mas o interessante é que, enquanto se argumenta, o sujeito embaça a visão (capacidade reflexiva) do ouvinte e faz a canção. É tanto que ele afirma no final: "e tá consumido". Ou seja, enquanto o ouvinte ouvia a discussão, o sujeito atingiu o objetivo: fazer o outro consumir sua canção.
O nome do outro - "tô punk de gritar teu nome sem parar" - não é revelado (nomear é perder o objeto). Mas o sujeito canta o canto do outro, aquilo que constitui e atravessa o outro: a canção. E assim, consuma o desejo: amparado por fragmentos ideológicos-românticos do amante francês e italiano, além de estratos da cultura do inglês.
O sujeito da canção, portanto, é o compositor popular que, além de cantar seu percurso histórico (os ritmos que surgiram), ele canta suas artinhamas persuasivas. A canção de amor que impressiona e é consumida; e que se adequa aos vários estados (de espírito e de gosto) do ouvinte.
Ao final, o sujeito não esquece de si (de fato, nunca esqueceu, pelo contrário): ele não esquece dos louros (barulho-rock) que o sucesso da canção lhe trará. Enquanto o ouvinte dança samba (ao som da batida perfeita), a canção faz barulho e tem seu consumo consumado.

***

Consumado
(Arnaldo Antunes / Carlinhos Brown / Marisa Monte)

Tô louco pra fazer
Um rock pra você
Tô punk de gritar
Seu nome sem parar

Primeiro eu fiz um blues
Não era tão feliz
E de um samba-canção
Até baião eu fiz

Tentei o tchá tchá tchá
Tentei um yê yê yê
Tô louco pra fazer
Um funk pra você

E tá consumado
Tá consumado
Tá consumado
Tá consumado

Fiz uma chanson d'amour
Fiz um love song for you
Fiz una canzone per te
Para impressionar você

Pra todo mundo usar
Pra todo mundo ouvir
Pra quem quiser chorar
Pra quem quiser sorrir

Na rádio e sem jabá
Na pista e sem cair
Um samba pra você
Um rock and roll to me

E tá consumido
Tá consumido
Tá consumido
Tá consumido

Fiz uma chanson d'amour
Fiz um love song for you
Fiz una canzone per te
Para impressionar você

4 comentários:

Bruno Lima disse...

Fiquei intrigado com a tua afirmação inicial de que não há como distinguir a canção de seu suporte. Será? Num primeiro momento, me parece que a canção é composta e, ao sê-lo, pouco importa onde ela será ouvida. Melhor dizendo, não sei se a composição leva em conta se ela será ouvida em rádio, em vinil, cd, etc. e se isso altera alguma coisa no processo de criação. Não tenho muitos subsídios para defender o que estou dizendo, mas fiquei intrigado.
Abraços.

Por que você faz poema? disse...

O jogo de palavras construido por Arnaldo na canção é muito interessante: o consumado e o consumido realmente se encontram.

Leonardo Davino disse...

Bruno, você não acha que escrever um poema em papel (a utilização estética do espaço em branco) e escrever um poema no computador (com as possibilidades dadas por este) impõem soluções e resultados que afetam a feitura do poema?
Eu creio que sim. E do mesmo jeito à canção, ou qualquer outra peça artística.
Caetano Veloso, quando perguntado por Augusto de Campos, em 1968, se era possível conciliar a necessidade de comunicação imediata com as inovações musicais, respondeu: "Acredito que a necessidade de comunicação com as grandes massas seja responsável, ela mesma, por inovações musicais."
Ou seja, cada suporte exige determinado empenho (gesto estético) do artista.
Compor para o tempo/espaço do disco de vinil (com as possibilidades que este dava) é bem diferente de compor para o mp3, por exemplo.
É tanto que muitos pesquisadores observam a diferença (não só na qualidade da captação e do armazenamento do som), mas também na relação artista/suporte.
Pense na história da literatura que você roçará o que quero afirmar.
Valeu pela questão que me fez pensar.
Abraço

Bruno Lima disse...

Léo, talvez você tenha razão. O que me fez questionar, num primeiro momento, a sua afirmação foi o fato de que uma canção composta inicialmente para o vinil, por exemplo, não a impede de ser executada também na rádio, e assim por diante. Em todo caso, a minha observação foi mais uma abelhada do que qualquer outra coisa rs. Não perco essa mania de me meter a falar, ou querer falar, sobre qualquer assunto.

Abraços