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18 agosto 2010

230. Superhomem, a canção

"Superhomem, a canção" é uma confissão: o canto de um investimento que fracassou. A voz de Gilberto Gil (Realce, 1979) pontua o fracasso do sujeito ao mover-se lânguida e melancolicamente entre as notas arrastadas (e tristes) da melodia.
"Superhomem, a canção" é uma bela canção na medida em que a harmonia (o equilíbrio) entre letra e melodia está elegantemente bem montada. Nada sobra, nada falta, na canção como um todo orgânico.
O sujeito lamenta e aponta que o projeto de cultura baseado apenas no masculino malogrou (faliu) e espera (roga) pela chegada do superhomem nietzscheano: o super humano que nos restituirá a glória primitiva (de antes da fundação da cultura escrita) quando não havia a "dívida infinita", que gera a culpa.
Ou seja, como estamos sempre devendo (e só pagamos os dividendos) algo (à Deus, à família, ao Estado, etc) carregamos a culpa da impossibilidade de zerar. A voz que canta em "Superhomem, a canção" é uma voz culpada: por sentir seu projeto de vida fracassar, também. Ser homem não bastou (o mundo masculino não lhe deu o esperado), é preciso que o superhomem venha: com sua sugestão de androginia.
Podemos dizer, a grosso modo que, ao jogar com os signos "homem" e "mulher", o sujeito, além de apontar a harmonia necessária entre as forças Yin e yang, chama a atenção para a equivalência entre credor (homem - força ativa) e devedor (mulher - força reativa), historicamente assim definidas.
A "dívida infinita" e a "má consciência" geram indivíduos dóceis. O sujeito da canção percebe isso, reconhece sua incapacidade de mudar isso (posto que está esboroado nas engrenagens que o faz assim), mas crê, e canta o prelúdio (os vocalizes de Gil no final intensificam isso) de um novo tempo: em que o superhomem (como um deus) mude o curso da história: reavalie e crie os ideais.
Descrito no livro Assim Falou Zaratustra, para Nietzsche, o superhomem (o apogeu do humano: o além do homem) não terá a "má consciência" (resultado da culpa). O superhomem não terá medo de não ser reconhecido (hoje, esperamos, muito, o reconhecimento alheio): o superhomem não terá medo de não ser cantado (amado), simplesmente porque ele, nele mesmo, terá equilibrado o verão e a primavera, para citar a bela metáfora usada pelo sujeito da canção.
Aliás, falando em metáforas, o verso "mudando como um deus o curso da história por causa da mulher" remete o ouvinte (espectador de cinema) à cena em que a namorada do Superhomem (o filme) morre no acidente de trem e este altera (retroativamente) a rotação da terra para salvar a namorada.
"Deus está morto", cabe ao homem tomar conta de si. O sujeito da canção sabe disso, mas ele sabe, também, que o homem não vive sem crença (na possibilidade de enunciação de um conhecimento), por isso crê (e canta) na vinda do superhomem.

***

Superhomem, a canção
(Gilberto Gil)

Um dia
Vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter

Que nada
Minha porção mulher, que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É que me faz viver

Quem dera
Pudesse todo homem compreender, oh, mãe, quem dera
Ser o verão o apogeu da primavera
E só por ela ser

Quem sabe
O Superhomem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história
Por causa da mulher

2 comentários:

Por que você faz poema? disse...

Genial o paralelo entre SUPERHOMEM - O FILME com SUPERHOMEM - A CANÇÃO. "Por causa da mulher", Louis Lane conseguiu inspirar um belissimo e sensivel trabalho.

ADEMAR AMANCIO disse...

Legal.