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27 outubro 2010

300. Segredos

"Pra mim não porque pela minha sensibilidade exagerada, pela qual eu conheço por demais, a dor se verifica, a dor me faz sofrer, a dor acaba, a dor permanece na sua ação benéfica histórica moral, a dor é um dado de conhecimento, a dor é uma compreensão normalizante da vida, a própria dor é uma felicidade".
Penso nesta interpretação nietzschiana da dor, colhida entre as cartas que Mário de Andrade trocou com Carlos Drummond de Andrade, enquanto ouço o sujeito da canção "Segredos", de Frejat.
Guardada no disco Amor pra recomeçar, 2002, cujo título já aponta o movimento cíclico (em diferença) das coisas, a canção "Segredos" trabalha com aquele tipo de dor gostosa (feridas da vida). A procura do amor, para o sujeito da canção, motivo de dor, é, também, o despoletador do canto; ou seja, da individuação na vida.
Dor e prazer, aqui, encontram a mesma saída: a voz. A dor, causada pela falta do outro, caso seja bem aproveitada, possibilita a compreensão da vida: é felicidade à medida em que permite o autoconhecimento.
O sujeito da canção, procurando alguém que lhe seja bom, sugere que já saiba o que lhe seja bom. Infelizmente, isso lhe leva a procurar alguém que se encaixe nos seus sonhos, eliminando as surpresas que o amor inesperado pode trazer.
Apesar de achar que pode encontrar o outro em qualquer lugar, o outro precisa ser "exatamente esta coisinha, esta coisa toda minha": que não se assuste quando começar a conhecer os impronunciáveis segredos do sujeito.
A voz de Frejat, emoldurada pela balada blues da melodia, transmite a sensação de um sujeito de bem consigo. Há um romantismo sincero e, óbvio, vazando, prenetrando a canção e tencionando a solitude dolorosa e prazeirosa de viver.
Definitivamente, o sujeito não rima amor e dor. Porém, há uma proliferação de signos da melancolia ("procuro um amor") e da utopia ("diferente de todos que amei") românticas, que pontuam algo que aperta os dispositivos da busca eterna (alegre e dolorosa) da felicidade.
A busca do sujeito que "vai até o fim" é nosso dispositivo humano demasiado humano: aceitar as lágrimas e os sorrisos que a vida oferece, sem comodismo, fazendo disso uma canção íntima: sempre em movimento, em trânsito - permanente work in progress.

***

Segredos
(Frejat)

Eu procuro um amor
Que ainda não encontrei
Diferente de todos que amei

Nos seus olhos quero descobrir
Uma razão para viver
E as feridas dessa vida
Eu quero esquecer

Pode ser que eu a encontre
Numa fila de cinema
Numa esquina
Ou numa mesa de bar

Procuro um amor
Que seja bom pra mim
Vou procurar
Eu vou até o fim

E eu vou tratá-la bem
Pra que ela não tenha medo
Quando começar a conhecer
Os meus segredos

Pode ser que eu gagueje
Sem saber o que falar
Mas eu disfarço
E não saio sem ela de lá

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